Ansiedade: entenda o que pode estar por trás

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Sente seu coração acelerar antes de determinados eventos? As preocupações fazem parte da sua vida? Tende a pensar muito? Você é uma pessoa ansiosa? Entenda o que pode estar por trás da ansiedade lendo este texto até o final.

Vivemos em uma sociedade líquida, de acordo com Bauman. Segundo este autor, do qual gosto muito, a modernidade está em busca de tudo aquilo que possa atender as suas necessidades de maneira imediata, algo muito próximo da nova geração que nasceu praticamente imersa no universo tecnológico. Porém, isso também atinge os adultos, principalmente porque o ambiente corporativo tem adotado a emergência mercadológica a fim de atender suas demandas competitivas.

Liquidez humana

O autor acima mencionado aborda a liquidez humana sob vários vieses, tendo por base a modernidade líquida, partindo dos afetos existentes nas relações de maneira geral. O autor vai muito além de simplesmente questionar as atuais relações cotidianas, as quais acompanham o imediatismo tecnológico e psicológico, já que a impulsão promovida pela necessidade de suprir carências emocionais sempre fala mais alto.

Por exemplo, sobre o amor, ele fala que existe uma dualidade entre o amor e o egocentrismo. As pessoas dizem amar, mas suas atitudes são impulsionadas pelo calor de suas carências. Ou seja, desejam o objeto de amor porque ele é portador daquilo que falta no indivíduo que diz amar. Existe uma ambivalência, porque amar é sinônimo de alteridade, que é  a concepção que parte do pressuposto básico de que todo o homem social interage e interdepende do outro, o que contraria a dependência tão comum nas relações.

Projetar no outro expectativas pessoais

Existe uma tendência de se projetar no outro expectativas pessoais. E, dessa forma, as pessoas se comprometem desde que, de forma inconsciente possam se tornar únicas com o outro, ou seja, “se eu gosto de rock, você também vai gostar” e por aí segue a lista de condições que só tornam o outro cada vez mais igual a nós, ignorando a singularidade importante e sustentadora de uma relação que, aliás, não deve nunca ter a pretensão de durar para sempre. A finitude é um medo que o ser humano carrega, justamente por essa atitude equivocada de projetar-se no outro, deixando de lado suas bases subjetivas essenciais. “O outro precisa ser meu e se anular para que eu possa ser feliz”. É um amor um tanto egóico. Não?

“Se não for como eu quero, é porque tem algo errado”. As pessoas se esquecem que somos diferentes e se decepcionam com isso. É a contraditoriedade do amor com o egocentrismo. São opostos que se misturam nessa ação de amar tão conhecida pelo ser humano.

Reprodução dos comportamentos de consumo

Existe uma tendência à reprodução dos comportamentos de consumo nas relações. A maioria está tão acostumada com a velocidade das informações e com que os produtos cheguem às mãos, que acabam, de forma inconsciente, encaixando as relações nessa mesma realidade, como se estas fossem produtos a serem descartados quando não atingem o nosso objetivo.

E isso é o contrário do amor. A imprevisibilidade ou incerteza causa insegurança e isso abala as estruturas de qualquer indivíduo controlador. Amor e posse se confundem nesse jogo e, com isso, a relação se torna um jogo de forças em que um manipula o outro para que permaneçam juntos, culminando no fim.

Descartabilidade

O que Bauman nos traz é a relação dicotômica das pessoas que vivem esta condição de descartabilidade, ou seja, amam e desamam, porque na verdade fogem do amor. Ele aborda  a “incapacidade de amar”. Existe uma fuga do amor pelo medo do fim. Não há ego que suporte a rejeição.

Dessa forma, há que se encarar o fenômeno do amor como uma “hipoteca baseada em um futuro incerto”, pensando na relação de forma mais racional e realista e, a partir do diálogo, desde o início, assinar um contrato de tudo o que um pode suportar e abrir mão, da mesma forma como o outro. E assim, cabe à maturidade de cada um o papel de respeitar os limites, sabendo dizer não toda vez que sentir essa necessidade.

Uma relação baseada em respeito mútuo e diálogo tende a ser mais duradoura, mas mesmo assim, não tem o “felizes para sempre” como lema principal. Por isso, a importância de também se respeitar a individualidade. Quando um subjuga o outro e o outro acata com essa situação, há uma predominância de poder injusta, que culmina na privação da felicidade de um em relação ao outro.

A incerteza das relações

Há outra questão interessante que o autor aborda: a incerteza das relações. Eliminar a solidão não é o mesmo que eliminar o sentimento de estar só. Você pode sofrer estando com alguém. Eliminar expectativas é tão importante quanto evitar cobranças. As duas condições equilibram a sensação interna de leveza. O amor é aceitar o outro apesar de suas diferenças e mesmo que o foco de sua escolha não seja você.

O outro não deve ser muleta para suprir nossas carências e sim, o alicerce central capaz de impulsionar a evolução conjunta, respeitando sempre a individualidade dos dois, dentro e fora da relação. Ser duplo significa consentir em indeterminar o futuro.

Relação de causa

O autor ainda fala que o viver juntos deve ser por causa de e não a fim de. Não ter a pretensão de tornar o outro mais um laço de parentesco para nós deve ser uma condição importante. Pensar em como a relação vai ser é algo mais leve do que transformar a relação em uma obrigação matrimonial. Da mesma forma, deve se manter o pensamento crítico de não almejar uma relação duradoura, mas aquela que deve durar o tempo necessário. O viver junto pode ser mais leve quando há divisão de tarefas de forma equilibrada. O autor fala “pode significar navegar juntos e compartilhar as alegrias e agruras da viagem”.

E onde a ansiedade entra nisso?

A ansiedade entra em tudo o que foi relatado. Fiz questão de trazer o Bauman como exemplo, e falando de um tema do qual gosto muito, o amor, justamente para ilustrar a ansiedade.

Justamente porque a tal da ansiedade está em criar expectativas irreais, em ficar imerso em pensamentos futuros, focar naquilo que não se tem em detrimento daquilo que já possui, viver constantemente acelerado e sem tempo para sentar e olhar para dentro de si mesmo. A ansiedade diz respeito a você negligenciar você para buscar aquilo que não possui, o que faz com que você viva para preencher vazios.

Mas, o que é a ansiedade, afinal?

Pelo dicionário, a ansiedade é um desconforto físico e psíquico; agonia, aflição, angústia.

Pela Psicologia, a ansiedade é uma condição emocional de sofrimento, definida pela expectativa de que algo inesperado e perigoso aconteça, diante da qual o indivíduo se acha indefeso.

E o que pode gerar a ansiedade?

Há muitas condições que culminam na ansiedade, que vão desde fatores fisiológicos até psíquicos. Autores da moda, como o Augusto Cury, por exemplo, procurou desbravar esse universo, entendendo ser uma tendência social, associando com a modernidade líquida de Bauman e, por isso, é um tema que vende.

Nessa mesma linha, o autor do livro “O cérebro ansioso”, o Dr. Leandro Teles, utilizando uma abordagem mais científica, afirma que existe a ansiedade do bem e a ansiedade do mal, e que existe um limite para a patologia. Ele diz que a ansiedade é necessária a nossa sobrevivência, indicando perigo (quando real). No entanto, torna-se patológica quando “ela passa a ser desregulada, gerando sofrimento demasiado e reduzindo o rendimento emocional e cognitivo”.

E ele não está errado. Na Psicologia cognitiva comportamental, temos um autor chamado Aaron Beck, que estuda alguns transtornos e tratamentos sob o viés dessa abordagem psicológica. De acordo com ele, existem alguns fatores que contribuem para a geração da ansiedade, no que se refere ao transtorno de ansiedade social (ou fobia social), a título de exemplo.

Fatores geradores da ansiedade

Para Beck, existem três aspectos únicos do Transtorno de Ansiedade Social:

O primeiro diz respeito aos sentimentos de constrangimento e vergonha frequentemente dominante, fazendo com que um encontro social seja excessivamente ansiogênico.

O segundo ponto se refere ao fato de que, para os ansiosos sociais, a ansiedade vivenciada em uma situação social provoca comportamentos inibitórios automáticos e tentativas de disfarçá-la, isso faz com que diminua seu desempenho social e acabe por provocar o maior medo desses indivíduos, a avaliação negativa dos outros, reforçando suas crenças.

O terceiro está relacionado ao estágio em que a ansiedade passa a ser uma ameaça secundária, ou seja, o indivíduo fica com medo de que outros percebam sua ansiedade, isso faz com que ele fique ainda mais ansioso, por acreditar que essa deve ser encoberta, pois pode gerar avaliações negativas.

Perceba que o foco está sempre em expectativas negativas de acontecimentos irreais. Isso tem relação com um pensamento disfuncional, que vai variar de caso para caso, a depender da pessoa. Lembrando que o exemplo acima foi bem específico.

A ansiedade é relativa à condição humana

Ainda de acordo com Beck, desde o início dos registros históricos, filósofos, líderes religiosos, acadêmicos e, mais recentemente, profissionais da saúde, bem como cientistas sociais e cientistas da saúde têm tentado desvendar os mistérios da ansiedade. Hoje, os principais fatores geradores de medo e ansiedade são eventos calamitosos provocados por desastres naturais ou atos desumanos de crime, violência ou terrorismo, ao redor do mundo.

Medo e Ansiedade

Medo e ansiedade devem ser claramente  diferenciados em qualquer teoria da ansiedade que se proponha a oferecer pesquisa para o tratamento da ansiedade.

Medo

O medo é um alarme primitivo em resposta a perigo presente, caracterizado por forte excitação e tendências a ação.

Ansiedade

A ansiedade é uma emoção orientada ao futuro, caracterizada por percepções de incontrolabilidade e imprevisibilidade sobre eventos potencialmente aversivos e um desvio rápido na atenção para o foco de eventos potencialmente perigosos ou para a própria resposta afetiva do indivíduo a esses eventos.

Em outras palavras

Em outras palavras, o medo é um estado neurofisiológico automático primitivo de alarme envolvendo a avaliação cognitiva de ameaça ou perigo iminente à segurança e integridade de um indivíduo.

Já a ansiedade é um sistema de resposta cognitiva, afetiva, fisiológica e comportamental complexo (modo de ameaça) que é ativado quando eventos ou circunstâncias antecipadas são consideradas altamente aversivas porque são percebidas como eventos imprevisíveis, incontroláveis que poderiam potencialmente ameaçar os interesses vitais de um indivíduo.

Procure ajuda

Se você, por algum motivo, acha que a ansiedade pode estar te atrapalhando, procure ajuda. Não deixe a ansiedade te atrapalhar!

Para ajuda: saiba como, clicando aqui.

Bibliografia recomendada:

BAUMAN, Z. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004.
CLARK, D. A., & BECK, A. T. (2012). Terapia Cognitiva para os transtornos de ansiedade. Porto Alegre: Artmed.
CURY, Augusto. Ansiedade: Como enfrentar o mal do século. 1 ed. São Paulo: Saraiva, 2014. 153 p.
TELES, Leandro. O cérebro ansioso : Aprenda a reconhecer, prevenir e tratar o maior transtorno moderno. 1. São Paulo: Alaúde, 2018. 261 p.

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