Um pouco de cultura pra você!


MASP

Dentre muitas idas e vindas a São Paulo, hoje (17/06/2010), pela primeira vez, estive no MASP (Museu de Arte de São Paulo). Lá, pude conferir a exposição de collages originais de “Uma semana de bondade” (Une semaine de bonté) de Max Ernst, um filologista, filósofo e psicólogo alemão que também explorou um pouco da arte de collages surrealista do século XX. Sua exposição trata da arte surrealista que utiliza um pouco da mitologia grega para tratar de situações cotidianas com os exageros da mente humana. “Une semaine de bonté” ilustra cada dia da semana com os seguintes temas: No domingo, o barro; na segunda, a água; na terça, o fogo; na quarta, o sangue; na quinta, a parte escura; na sexta, a vista e no sábado, o desconhecido. A arte lembra as charges que hoje vemos em jornais. Posso até arriscar dizer que o tipo do desenho lembra recortes de jornais, justamente pelas cores cinza escuras e claras.

Além dessa exposição, havia o “Stockinger – o descanso do guerreiro”, obras do considerado gaúcho, Francisco Stockinger, nascido na Áustria em 1919, vindo para o Brasil em 1922. Foi criado em São Paulo e morou no Rio de Janeiro, onde frequentou de forma assídua, por dois anos, o ateliê de Bruno Giorgi, em quem se espelhou. Sua arte é diferente das outras expostas no museu, porque é uma arte feita em madeira. E, devido à sua surdez precoce, não tinha problemas com as marteladas produzidas pelo seu trabalho. Suas obras valorizam guerreiros e sobreviventes. O artista admira a luta, a garra e a força.

Apesar desses artistas ilustres e de renome, o que mais me chamou a atenção foi a exposição do piso de obras da época do Romantismo e Mitos Gregos, porque me provocou uma intensa reflexão sobre o psicológico. Havia obras de Van Gogh, Renoir, Di Cavalcanti, Boldini, Monet, dentre outros. As obras mostravam as diversas fases do romantismo: a da natureza; do urbano com resquícios de natureza; do interior, onde o indivíduo se encontra consigo mesmo para refletir sobre o mundo externo dentro de seus quartos ou outras partes de sua casa; do narcisismo; do retrato; do auto-retrato; do retrato de pompas. Enfim, todas as fases para explicar que o romantismo é deixar as ideias se encontrarem com a realidade, assumir o presente, ou seja, viver o momento (podemos até lembrar o ‘carpe diem’), admirar tudo aquilo que está distante ou que é ou parece inatingível; deixar o estático se transformar em movimento e entender que há movimento até no que parece estático. O romantismo nos faz perceber que as obras de arte, nada mais são, do que produtos da imaginação humana, uma obra de arte retrata o que está no psicológico do artista. A arte expõe o ponto de vista de uma pessoa, que é o autor da obra, ou seja, é UM ponto de vista apenas. O romantismo nos faz compreender que o auto-retrato mostra não a realidade em si, mas a forma como o artista gostaria de ser visto e/ou reconhecido pela sociedade da época, considerando que ele (o artista) pintava grandes retratos da pompa (nobreza) e pessoas comuns, que se tornavam conhecidas; eles também desejavam o reconhecimento ou a fama. Na atualidade, podemos chamar de auto-retrato, as fotografias tiradas pela própria pessoa de si mesma, além dos diversos estilos de desenhos e pinturas “fotográficas” existentes. Essas pinturas de retratos do Romantismo, de uma maneira geral, são pontos de partida para se entender o ser humano.

A disposição das obras, bem como seus temas centrais, não são aleatórios, tão pouco estão lá ao acaso. Isso é tão evidente porque, após a exposição das obras da época do Romantismo, encontram-se pinturas, estátuas, peças antigas que retratam a mitologia grega. Digo que não é ao acaso que lá estão, porque as obras do romantismo, mesmo que de forma inconsciente, deixam transparecer ideias de alguns mitos, principalmente, quando se idolatra a figura feminina nua em diversos ângulos (lembrando Vênus). Esta é uma das fases do romantismo. A mulher é um ser, em alguns momentos, de contemplação; em outros, de participação de uma ação no conjunto com o meio, mas em quase todas as obras ela se mostra como um ser divino, sempre nu e quase perfeito, embora a beleza feminina da época não fosse tão semelhante ao modelo de hoje. Antigamente, o corpo robusto era o preferido entre os homens. O que me chamou a atenção foram algumas posições femininas encontradas nas pinturas: eram todas, em sua maioria, um pouco constrangedoras; de mulheres enxugando braços, por exemplo, mas sempre agachando de costas. Posso arriscar dizer que essa fase do romantismo retrata uma forma de machismo da época, mas se formos considerar que qualquer obra revela os desejos inconscientes e conscientes do artista, nem precisamos explicar muita coisa. Posso ir até mais longe: o corpo feminino sempre foi repleto de beleza e formas poéticas, o que não ocorre no masculino.

Infelizmente, não pude fotografar as obras, porque no interior do museu é proibida a utilização de máquinas fotográficas, mas encontrei algumas obras expostas na internet e resolvi postá-las abaixo.

Para finalizar, quero prestar meus elogios ao MASP – Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand – que possui uma organização e excelente recepção aos turistas e visitantes de uma forma geral. Estive em alguns museus da Europa, cada qual com seu estilo de obras artísticas. Não é porque sou brasileira, mas o MASP ganha de dez a zero de muitos deles.

A você, leitor amigo deste blog, devo dizer: se não tem o costume de visitar museus, ir a teatros e cinemas, comece a mudar seu repertório, porque eu, como uma boa jornalista que se preze, tenho que admitir que se aprende muito e amplia-se o repertório cultural de uma forma ímpar. Além do mais, li uma vez em algum lugar, que ver exposições de obras de arte e pinturas em geral, ajuda a melhorar a criatividade. Por isso, se puder e tiver condições, experimente porque vale à pena!

"The Great Pine" de Paul Cézanne - 1896

"Cinco Moças de Guaratinguetá" de Di Cavalcanti - 1930

"As meninas Alice e Elisabeth" de Cahen D'Anvers - 1881

"O filho do carteiro" de Van Gogh - 1888

"Moema" de Vitor Meirelles - 1866

"A estudante" de Anita Malfatti

Exemplo de retrato de pompa

Contatos:
(12) 9749-3912 / (12) 9104-6202 / (12) 8822-6263 / (12) 8195-2908

Anúncios