Entrelinhas da Vida


Estou tentando esboçar tudo o que sou para que mais tarde eu possa ser um espelho do que vivi, e quando olharem para mim, possam me dizer tudo o que trago no olhar; como um reflexo flutuante da realidade que emerge.

Os obstáculos no caminho não mais me perturbarão porque eles terão sido nada mais que escadas que me ajudaram a subir até o topo de um imenso castelo.

As forcas desse jogo infantil terão sido meros enfeites do excesso de roupas que usei em tempos frios.

Os calos nos pés serão apenas sinais do trabalho árduo que me ajudou a ser melhor.

Os amigos que se foram, as pessoas que sumiram, a solidão que me abateu, os empregos que deixei para trás serão tão somente experiências de um destino cujos caminhos foram escolhidos por mim e que hoje podem me fazer mais sábia e eficaz em minhas tomadas de decisão.

Seja como for, o que passou não volta mais. Só o que permanece é eterno, e se ficou, foi por puro merecimento. Com poucas palavras podemos destruir sonhos, romper laços, destruir amizades verdadeiras.

Com simples palavras podemos causar dores, desesperos e desagradar quem não precisávamos.

Com uma palavra, podemos acabar com nossa vida profissional, com um amor fiel e, com duras palavras, podemos deixar de ver pessoas que julgamos muito importantes para nós.

As palavras têm o poder de destruir, mas também de construir Amor. Por isso, tomar cuidado com elas é sinal de sabedoria. Agir com “a cabeça quente”, como muito se ouve por aí, é o mesmo que assinar sua carta de demissão em uma empresa.

Por tudo isso, vale muito à pena pensar antes de agir e reagir, e principalmente, degustar cada momento de aprendizagem. Sempre há uma lição nas entrelinhas da vida. Procure saboreá-la sempre que puder!

A lição de um sábio indiano

Autor: Fernando José Fendrich

A nossa história começa no Oriente, o berço da Civilização, mais exatamente nas montanhas do Himalaia, norte da Índia, região coberta de branco pelas neves eternas e conhecida como “o Teto do Mundo”.

Há muitos anos estabeleceu-se nessa região um velho sábio, após dar a sua contribuição ao mundo, para contemplar as belíssimas paisagens que a natureza construiu, praticar a meditação, realizar as suas disciplinas espirituais e manter-se liberto do apego às coisas materiais. Era uma região isolada, mas dentro em pouco sua fama espalhou-se, recebendo visitas de pessoas de várias partes que vinham aprender com a sua sabedoria.

O tempo passou e vamos encontrar o sábio na mesma região, porém tão famoso que vive agora cercado de discípulos do mundo todo, que construíram instalações e acomodações para receber a todos que vinham. A esse tempo, viajou para a Índia um brasileiro, atraído pela fama do sábio indiano e, lá chegando, dirigiu-se à remota região em que se localizava o “ashram” (comunidade espiritual) onde ele se instalaria e conheceria o sábio.

Foi conhecer as instalações, admirando-se da simplicidade dos ambientes e do fato de não haver serviçais: todos os trabalhos, desde a limpeza até a preparação dos alimentos, eram feitos pelos próprios hóspedes do “ashram”. Apressado, procurou avistar-se logo com o sábio para apresentar-se a ele e perguntar o que deveria fazer para aproveitar a sua estada naquele local.

Quando conseguiu, o sábio, notando-lhe a afoiteza, respondeu: “Vês esta montanha?” – apontando para aquela em cujo sopé localizava-se o “”ashram.” “Pois então sobe-a, aproveitando para apreciar a subida e a paisagem lá de cima. Depois que concluir, desce e vem ter comigo”.

O discípulo brasileiro foi, todo entusiasmado. Achou meio estranha a recomendação do sábio, mas como lá estava para aprender, decidira fazer tudo que lhe fosse pedido. Desejoso de cumprir logo a tarefa, subiu rapidamente a montanha, mal parando no caminho para descansar. Chegou no topo e permaneceu algum tempo por lá para refazer as energias, pouco apreciando a paisagem devido ao cansaço da rápida subida. Desceu, então, celeremente e, tão logo viu-se no “ashram”, procurou o sábio.

Este, ao encontrar o discípulo, perguntou-lhe sobre as impressões da subida. O brasileiro relatou-lhe, então, em rápidas pinceladas, o que vira na subida e a paisagem lá de cima. O sábio observou: “Foste muito afoito. Sobe amanhã novamente a montanha, porém procura observar as nuances da natureza, a vida que floresce em toda parte e a belíssima vista do Himalaia que obtém-se do topo. Na volta, venha ter novamente comigo”.

No dia seguinte, nosso conterrâneo subiu com um pouco mais de calma, procurando reter na memória mais detalhes do sinuoso caminho de subida. Observou, também como era bonito o “ashram” visto do topo da montanha, e como eram bem desenhados os contornos das montanhas que o rodeavam. De retorno, procurou ansioso o sábio, repetindo-lhe as impressões da escalada, adicionando novos matizes e detalhes percebidos nessa segunda viagem. O sábio sorriu, satisfeito com o progresso do discípulo, porém recomendou nova viagem para o dia seguinte.

As subidas à montanha foram sucedendo-se diariamente, e cada vez mais o discípulo admirava-se de perceber nuances inéditos do caminho, descobrindo que a cada vez que percorria a trilha o cenário apresentava novos detalhes, que ainda não haviam sido vistos. E, se antes vislumbrava a paisagem em seus contornos gerais, agora via detalhes do caminho, a beleza das flores e a maravilha da vida que pulsava por toda a parte.

Quando voltou da sexta viagem e encontrou o sábio, este disse-lhe: “Amanhã é o dia da minha subida semanal à montanha. Muitos discípulos me acompanham e creio que você possa vir conosco, depois todos trocaremos impressões sobre a escalada”.

No dia seguinte, logo ao alvorecer, reuniram-se todos no pátio do “ashram”. O sábio ia à frente, com os discípulos seguindo em silêncio atrás, em fila indiana (literalmente). Para desespero do afoito brasileiro, no entanto, o mestre parava a cada passo, admirava a paisagem ao redor, meditava com o olhar ao longe, contemplativo. Mais um passo, nova parada, nova análise da natureza que os cercava. E assim seguiram, com o brasileiro doido para chegar logo ao topo da montanha. Não podia, entretanto, passar à frente dos outros e teve de conter sua impaciência e subir no ritmo do velho sábio.

Depois de algumas horas chegaram ao topo, demorando-se por lá boa parte do dia. Durante esse tempo, enquanto o sábio apreciava múltiplos aspectos da natureza em torno, o discípulo brasileiro perguntava a si mesmo: “Subi essa montanha a semana toda e já conheço de cor a paisagem. Se esse sábio a sobe semanalmente há vários anos, o que será que ele vê de novo para o absorver assim por várias horas?”

Ao entardecer, desce o grupo até o “ashram”, no mesmo ritmo de caminhada. À noite reunem-se todos os participantes, sentados em círculo, para comentar com o sábio as impressões do dia. Ao ouvir os comentários dos demais discípulos, o brasileiro descobriu visões semelhantes à sua, algumas ainda mais superficiais, outras porém contendo aspectos que ele nem sequer suspeitava existirem naquela experiência. “Muito boa esta troca de idéias”, pensou ele, “enriqueci-me muito pelo intercâmbio de impressões com o grupo”. Sua expectativa voltava-se agora para os comentários do velho sábio, que ouvira todos os discípulos e começaria a falar.

“No primeiro passo, observei que …” iniciou o sábio, prolongando-se por longos minutos acerca de suas impressões sobre aquele momento. Depois de terminado, pensou um pouco e ajuntou: “No segundo passo.” e seguiram-se outras tantas considerações. E entrou pela madrugada comentando a subida, assombrando os discípulos que o conheciam há menos tempo com a profundidade de suas análises, que diziam respeito não apenas ao cenário observado, ao caminho transposto, à vegetação e aos animais encontrados e às demais impressões já relatadas pelos discípulos, mas, principalmente, às informações novas que o sábio era capaz de extrair a partir das observações efetuadas.

E ensinava aos discípulos: “A cada passo que damos, modifica-se todo o cenário à nossa volta.”. E continuou: “Há mudanças no cenário que percebemos facilmente, porém há aquelas que são imperceptíveis entre um passo e outro mas que modificaram-se substancialmente depois de dez passos”. Concluiu sentenciando: “Tendemos a perceber os aspectos de grande rapidez de modificação, ignorando os que aparentemente estão estáveis. E, depois que damos dez passos nos apercebemos que houve uma modificação substancial no que considerávamos estável, sem que soubéssemos como isto ocorreu. Perdemos uma grande oportunidade de aprendizado.”

Finalizando a preleção, já alta madrugada, aconselhou: “Dais muita importância em chegar ao topo da montanha, porém não aproveitais a lição que está oculta em cada passo da subida. O cenário de cada passo ensina tanto quanto o cenário do cume. Valorizais em excesso o resultado (chegar ao topo), desprezando todo o precioso aprendizado do processo de chegar até ele (a caminhada de subida). Em resumo, dais muito valor ao onde chegar, esquecendo do valor do como chegar.

(trecho retirado do site http://www.batebyte.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=292)

Contatos:
(12) 9749-3912 / (11) 7343-3177

Anúncios