Todas elas em mim


Já me perdi por amar demais. Li livros que me explicassem mil situações, cantei e compartilhei músicas que servissem de indiretas. Já fui louca de amor e esqueci de esquecer alguém. Já dancei e fiz amor com a pessoa amada. Entendi perfeitamente o “Amor e Sexo” de Rita Lee. Até já “dancei tango no teto” por alguém, me deixei levar por suas palavras, me fantasiei com suas fantasias e deixei o medo se transformar em ciúmes. Confiei sem poder confiar, amei sem poder esperar, fui segredo depois de ter sido modelo.

Já fiz juras e escrevi cartas de amor, fiz da minha vida um poema, transformei poesias em canções, imaginei sonhos irreais. Realizei sonhos antigos, sepultei desejos proibidos.

Guardei segredos impossíveis e já até escrevi um livro. Plantei árvores repletas de histórias e namorei embaixo de uma delas. Roubei paixões, conquistei amores que não foram vividos. Explorei mistérios ocultos e descobri o perigo. Escolhi pessoas erradas para o meu convívio.

Desperdicei meu tempo com outras tantas que se juravam infalíveis. Me iludi com promessas intangíveis e me machuquei profundamente com uma dor que não me pertencia.

Fui atriz, dançarina, modelo, bailarina. Fui romântica, atrevida, ousada e intrometida. Fui de tudo para alguém e nada para quem merecia, fiz o certo e o errado; fui promessa descumprida. Fui “acesso livre” e “eterna despedida”, fui destemida e metida.

Para alguns, pareci antipática, enquanto que para outros só mudou o prefixo. Fui curiosa e não gostei do produto de minha curiosidade, mas já fui curiosa e me surpreendi com tudo o que vi. Já caí de um abismo emocional e tive o privilégio de emagrecer tudo o que não conseguia por anos em um único mês. Já fiz palhaçadas com tristezas e chorei com as alegrias.

Já fui menina-moleca e criança atrevida. Já chorei por tudo e deixei de chorar por nada. Já fui tudo e fui nada e me transformei em bruxa quando queria.

Fui travessa, fui esperta, fui doente e alerta. Nada era tudo e Tudo já foi nada. Já quis tanto algo, que de tanto querer desisti de conquistar; também já sofri tanto por alguém que desisti de me esquecer.

Já fui amiga traída, boba e amada. Já fui objeto de bajulação e até sofri bullying sem saber.

Já conquistei o pódium da vitória com simples gestos e atitudes. Já tropecei em pedras gigantes e caí em buracos profundos. Já desisti do que não devia e lutei por tudo o que não me merecia.

Fui frágil quando não podia ser, e forte quando era livre para desabar. Fui anjo para alguém, fui sentimento eterno, segredo exposto e ferida que não cicatriza.

Fui um buraco negro dentro de um túnel sem fim, fui uma divindade sendo adorada e inatingível. Fui amiga mimada, amiga que mima.

Fui pegajosa e desleixada, fui estima e carisma e quase sempre desejada.

Fui tudo e fui nada. Hoje sou tudo e sou nada.

Vi Michael Jackson renascer das cinzas, se transformando em meio a inúmeras cirurgias; conheci nomes como Amy Winehouse, Kurt Cobain, Cássia Eller, Renato Russo, Mamonas Assassinas, Ayrton Senna, dentre muitos outros desaparecerem depressa demais.

Assisti à Fátima Bernardes renunciar ao posto de primeira dama do Jornal Nacional, cheguei a ligar tantas vezes a televisão e escutar a voz de Lombardi de Silvio Santos e só o conheci quando veio a falecer. Fiquei triste com a morte do belo Heath Ledger, tendo acompanhado muitos de seus trabalhos no cinema.

E mesmo não sendo da época em que a programação televisiva só podia ser vista em preto e branco, sempre gostei de boleros, gafieiras, tangos e cha-cha-chas. Soltinhos então…nem me fale!

Sou da época em que rock era leve, piscina de plástico era moda, bambolê era brincadeira infantil, CD ainda era novidade e disco de vinil ainda era comum. Sou da época em que boneca era apenas uma brincadeira e não se transformava tanto em realidade. Sou da época em que as promessas eram cumpridas e os sonhos não eram vividos pela metade. Sou da época do Jurassic Park, do Castelo Rá-tim-bum e apenas Rá-tim-bum. Sou da época em que a diversão era por pouco e pega-pega também era brincadeira. Sou da época em que internet não existia e que palhaços eram engraçados, circos eram rotina e filmes, só com pipoca. Sou da época em que os avós tinham valor, o carnaval era sereno e lotava as matinês. Sou da época em que histórias tinham vida e em que os sonhos eram alimentados. Sou da época em que Xuxa fazia sucesso, em que Sérgio Malandro era engraçado, Big Brother não existia e crianças viviam seus últimos anos de inocência.

Sou da época das estórias em quadrinhos, do Capitão Planeta, da TV Colosso, dos Ursinhos Carinhosos e da Turma da Mônica. Sou da época em que o Gasparzinho ainda era conhecido, que o Pequeno Príncipe não era história para crianças e que o conto de fadas ainda existia. Sou da época em que Cisnes eram sonhos e princesas eram promessas… Sou da época em que acreditava que o filme “Matilda” era um espelho da minha vida, pelo fato de a protagonista ser devoradora de livros.

Sou da época em que Sandy e Júnior inspirava crianças, eram unidos e conhecidos. Sou da época em que fantasia não era vergonha e sonhar não era proibido.

“Há duas épocas na vida: infância e velhice, em que a felicidade está numa caixa de bombons”. (Carlos Drummond de Andrade)


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