A vida que Ela descobriu…


Ela se acostumou a ficar só, aprendeu a deixar-se levar pela vida, deixou-se transformar pela realidade que a cerca, se rendeu ao peso do dia a dia, e se entregou à paixão de fazer o que se gosta.

Esqueceu-se dos outros, descobriu-se a si mesma, se acalmou no conforto da família, aprendeu a viver na grande cidade sem os cuidados maternos.

Ela se perdeu e se encontrou, depois se reencontrou em alguns muitos abraços; se confortou em palavras de amigas; depois se afastou novamente no seu quarto de sonhos. Viveu intensamente cada momento de felicidade. Realizou cada desejo antigo, se entregou a muitos possíveis amores e fez tudo do mesmo jeito de sempre, sem perceber.

Depois, descobriu novas lentes para usar e, dessa forma, conseguiu enxergar de maneiras diferentes uma mesma situação.

Aprendeu a se desapegar do passado, de tudo e de todos. Aprendeu a ser só. Acumulou histórias, descobriu novos mundos, conquistou novos espaços, dançou uma mesma música com passos diferentes.

Ela fez novos amigos e até novos inimigos, mas estes desistiram de odiar e passaram a admirá-la, quase sem perceber. Definitivamente, aprendeu a se valorizar. Deixou os modelos antigos de perfeição de lado, e mudou o foco. Ela se descobriu medrosa, e em alguns momentos, teve pânico. E foi aí que descobriu o remédio perfeito que não precisa de receita: os amigos verdadeiros.

Descobriu que a felicidade está dentro do ser, e não no aspecto físico. Descobriu que estar em paz consigo mesmo depende mais do que se faz com as experiências que se teve, do que das experiências propriamente ditas.

Deixou de correr atrás das borboletas e passou a cuidar do seu jardim para que elas fossem até ela. Ela simplesmente entendeu o que o poeta quis dizer e colocou em prática. Percebeu que funciona e adotou como filosofia de vida.

Entendeu que quando alguém quer, vai atrás; que o amor não acontece como nos contos de fadas, ele é construído por meio de pessoas que se dispõem a fazer dar certo. Ela entendeu que a vida não é como um jogo de xadrez – lógico e coerente – a vida é feita de incoerências e não segue regras matemáticas para que tenhamos o resultado desejado no final. A vida tem suas curvas. O que nos torna capazes de driblá-las é a nossa flexibilidade. Se não nos adaptarmos às mudanças, jamais entenderemos a inconstância das pessoas. E nossas ilusões vão nos decepcionar.

Ela entendeu que não existe sorte, mas preparação. Não existe fuga, apenas confronto com os nossos medos. Não existe promessas infalíveis para sonhos reais. A vida é um quebra-cabeças indecifrável. Você tem que jogar não como se joga um jogo lógico, mas como uma criança que não pensa no depois, se entregando à brincadeira do agora.

Ela entendeu que é impossível fazer planos que dão certo em cada detalhe. É impossível planejarmos o futuro sem que haja mudanças. É impossível posicionarmos as pessoas em nossas vidas, como peças de um tabuleiro.

Ela aprendeu com seus erros e passou a acertar quando parou de se preocupar. Ela passou a acertar quando se sentiu cansada de persistir fazendo o que sempre fazia, olhando sempre por um mesmo ângulo aparentemente imutável.

Antes, ela não entendia nada. As pessoas se afastavam porque interpretavam de forma inconsciente suas fraquezas e necessidades de preencher vazios. As pessoas se afastavam porque, inconscientemente, ela depositava muita responsabilidade nos outros mesmo sem entender como fazia isso. A responsabilidade que era só dela de se fazer feliz, ela dizia que era do outro: era o outro o responsável por sua felicidade; era o outro quem tinha que agir da maneira que ela queria sem que ela abrisse a boca para falar um A.

Ela aprendeu que a única pessoa responsável pela sua própria felicidade é ela mesma. A única pessoa capaz de fazê-la sentir completa é ela mesma. Por isso, entendeu que o tempo que passou sozinha consigo mesma não foi demais e muito menos de menos. Foi o suficiente para ela se conhecer. Todo mundo precisa disso, todos precisam se afastar para enxergar tudo fora do quadrado.

Ela acabou se acostumando a ser só. Mas, viveu o outro extremo: fugia de relacionamentos mais sérios. E ela não fazia isso de forma consciente não! Ela apenas passou a interpretar mínimas indiferenças (ou diferenças) como sendo desinteresse e passou a se afastar (ou desprezar quem agia assim com ela). Eram as suas defesas. As defesas nascem das decepções que se teve na vida e pode ser uma praga no meio de uma plantação, porque pode transformar uma pessoa doce em amarga.

Mas, ela deu sorte porque conseguiu continuar sonhando, apesar de tudo. As defesas realmente fizeram juz ao nome e serviram de escudo para novos sofrimentos. Ela continuou se envolvendo, mas sempre se desapegando rápido demais, principalmente, quando havia distância.

Foi quando parou de buscar e deixou as coisas acontecerem. Não parou de sonhar, mas não se desesperou.

Começou a dar passos pequenos, sonhar com coisas diferentes, mudou o foco. Se deparava com alguns pensamentos sempre que tinha que encará-los e depois apertava o botão Off. Alguns psicólogos podem até discordar, mas funcionava (ou ela achava que funcionava). Ela apenas mudava o foco e se sentia bem, então funcionava.

Ela acostumou-se com a ideia de viver a vida sozinha, sem depender de ninguém. Pensou em ser independente financeiramente, algumas vezes acompanhada, outras sozinha. Desistiu de ter filhos por experiências alheias, fez novos planos e desfez novamente. Percebeu que as coisas mudam sempre e, por isso, nenhuma ideia pode ser definitiva. Entendeu que podemos nos apaixonar pela ideia de estarmos apaixonados, o que não significa dizer que realmente estamos apaixonados; mas isso pode ser um bom começo.

Porém, ela esqueceu de analisar que se as coisas mudam o tempo todo, essas suas novas ideias também estão passíveis de serem transformadas novamente em algum momento específico que ela ainda não sabe qual vai ser.

De repente, quando ela menos espera, as coisas começam a se transformar. O avesso parece certo para sua vida e começa a encaixar nesse quebra-cabeça infinito.

Ela passa a entender que a mulher precisa ser inteira antes de se envolver numa história de amor, porque ela precisa ser completa para poder transmitir a sensação de leveza e completude na complexidade de outra vida.

De repente, ela entende que nunca estará certa e que o começo nem sempre pode ser o começo, e o fim nem sempre significa que acabou. E é aí que está a graça da vida: acordar sem saber das surpresas do dia, e dormir com a sensação de que valeu a pena.

Contatos:
(12) 9749-3912 / (11) 7343-3177

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