A Voz dos ‘excluídos’


rapComo já contei aqui neste blog, fui chamada para participar de um debate sobre a Redução da Maioridade Penal no Brasil. Discussão essa que voltou à pauta  durante aquelas manifestações que ocorreram em meados de Junho deste ano, exatamente quando professores reivindicavam seus direitos, em São Paulo – cidade com maior número de pessoas de diversas culturas, onde a Educação é problemática, como o resto do país e também onde existe um grande número de crianças.

Talvez, tudo isso se dê pelo fato de ser a maior cidade e, por isso, tudo fica mais evidente. Mas, a questão é que o governador de São Paulo, o senhor Geraldo Alckmin foi a Brasília com o propósito de desviar a atenção – da Educação – para um assunto que não deveria ter exatamente este foco. É algo muito complexo para discutirmos, quando se tratam de crianças que, caso seja aprovada a redução, serão colocadas dentro de presídios com bandidos talvez piores que eles, os privando de Educação.

Acontece que já dei minha opinião a respeito do tema neste blog, e neste momento o meu foco é outro. Então, não vou me prolongar na questão. Clique aqui para conferir o que já foi escrito a respeito.

Este debate do qual particdebate1ipei só foi denominado de debate porque, inicialmente, participariam também convidados favoráveis, mas apenas estiveram presentes os contrários à redução, o que tornou a reunião uma grande troca de experiências e visões semelhantes, porém com perspectivas diferentes. Foi construtivo.

Vou falar das minhas percepções. Sou uma pessoa extremamente aberta a conhecer universos diferentes do meu, justamente, porque busco compreender o ser humano como um todo, partindo do que eu reconheço como parte do meu mundo. Portanto, vou narrar como uma jornalista – que não tenho como deixar de ser – muito embora eu tenha estado neste lugar como uma cidadã com opiniões a serem discutidas, de acordo com o que acredito ser o correto.

O cenário do evento ocorreu na periferia de São Paulo, exatamente na Cidade Dutra, Zona Sul, na sede da CEDECA (Centro de Defesa da Criança e do Adolescente de Interlagos).

Ao nos afastarmos um pouco do Centro, chegando na periferia, já podemos observar algumas situações características, como o desrespeito no trânsito, por exemplo, e um comportamento comum pelas ruas. Lógico que não podemos generalizar, mas faz parte desse contexto, o que também não é necessariamente significativo, porque, muitas vezes, estilo é apenas estilo, e não determina o caráter de ninguém.

Não vou negar que minha primeira impressão, ao chegar, foi impactante, visto que o retrato do ambiente é diferente do que estou acostumada: rap em alto som, e estilos que concordam com a música que tocava.

Comecei a pensar da seguinte forma: “é importante entendermos o que tudo isso quer dizer para essas pessoas, as quais não possuem voz na mídia, como eles mesmos insistem em dizer. E já que estou aqui, vou observar, analisar e participar.”

Foi o que eu fiz. Tentei prestar a atenção nas letras dos ‘raps’ que estavam tocando, mas não conseguia entender muita coisa devido ao barulho do som que destoava com a voz. Mas, o pouco tempo que fiquei ali observando me fez compreender alguns versos críticos e, ao mesmo tempo, agressivos, que expressavam toda a revolta de uma população excluída, que busca um espaço a todo custo para ser vista e considerada como pessoa ‘humana’, tanto quanto qualquer outra mais ‘elitizada’.

As letras são poesia, com rima, coerência e pontos de vista, muitas vezes, muito bem colocados. A maioria recheadas de críticas ao poder: que pode ser o governo, ou pessoas de classe social melhores, e até a situações vivenciadas por eles ou próximos as quais são vistas como ‘erradas’.

Creio que tenha uma proximidade muito grande com o hip hop – se não for a mesma coisa, arrisco dizer – e muito próximo dos argumentos presentes no funk, este porém, com muito mais ironia e uma revolta mais escrachada e sem pudores em relação a assuntos sexuais, por exemplo.

A verdade é que é por meio desse estilo que algumas pessoas se encontram e manifestam sua revolta, muitas vezes, contida; o que ao meu ver é super válido quando pensamos no papel que a arte – em sua mais variada forma – tem para tirar o indivíduo da violência e, principalmente, do trágico mundo das drogas.

O rap é agressivo, porém, posso dizer que sua agressividade é justificada pela situação na qual está inserido; mesmo que eu acredite existirem outras formas, com mais parcimônia, de defendermos o que julgamos ser como verdadeiro, ou como nosso ponto de vista. Vale lembrar que a agressividade pode estar escondendo um ser humano completamente sensível e emotivo, mas o orgulho o faz usar essa máscara. Isso a psicologia explica bem.

Acontece que, ao conversar com alguns deles, percebi que não compreendem a pacificidade como algo 100% assertivo e, por isso, acreditam que a revolta seja algo que dê certo. A visão de “se não vai pelo amor, vai pela dor” é algo muito forte entre eles e até compreensível, pela exclusão que sofrem, embora, ali, naquele universo em que estive, todos sejam “da paz”.

O rap é para eles o mesmo que este blog ou a reflexão é para mim: uma maneira de expressar a dor, a revolta, o desconforto, o inconformismo, a vontade de ser melhor ou fazer a diferença no mundo.

Não quero fazer críticas ao estilo, movimento ou comunidade. Não estou lançando uma visão superior sobre essas pessoas extremamente simpáticas, simples e, ao mesmo tempo, brilhantes que conheci. O que quero mostrar com tudo isso é que o diferente também pode nos mostrar algo que não temos.

A TV nunca mostra o lado bom das periferias e favelas do Brasil. Lógico que, se o governo realmente fizesse justiça e não fosse corrupto, esses locais, frutos da desigualdade social. talvez nem existissem e nem estaríamos aqui discutindo nada disso. Mas, isso também é histórico, e existe desde a época do império, quando a corte portuguesa veio para o Brasil expulsando moradores, os comprando por muito pouco (títulos), a fim de terem onde ficar, mesmo que temporariamente.

É preciso saber lidar com o diferente e entender o que ele quer dizer, antes de darmos nossa opinião a respeito. E isso deve acontecer dos dois lados (se existir lado). Vamos tirar a capa do preconceito?

Mas, a verdade mesmo é que esse é apenas um verso do reverso de uma história de longos anos, e que o Brasil ainda não soube lidar bem com inteligência e humanidade…

Contatos:
(11) 97343-3177
SKYPE: michelly.antunes.ribeiro

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