Louise Andreas von Salomé


Minha busca pelo saber é eterna, e vai além da minha própria capacidade de entendimento. Nasci com essa ideia de passar por todas as experiências possíveis, de me encontrar com o mundo, descobrir o universo e fazer, de alguma forma, a diferença.

Dessa maneira, lendo sobre alguns filósofos, passei a me encantar pelas ideias que rondam nossos tempos, porque descobri que não são originais. A maioria delas veio de séculos atrás, e muitas tiveram início antes mesmo de Cristo, sempre rodeadas por divergências e discussões entre pensadores que se contrariavam.

lousalome2Contexto de Louise Andreas von Salomé

Em meio a essas leituras, resolvi repousar minha mente e, depois, meu intervalo para descanso foi assistir ao documentário “A invenção da Psicanálise”, que me fez encontrar com a personagem que poucos conhecem, Louise Andreas von Salomé. Me encantei por ela à primeira vista. E sua história me provocou identificações peculiares. O filme tinha Freud como foco e, este sempre foi, para mim, alguém que eu chamo de ‘amor’, ao contrário de Jung que, ao meu ver, poderia ser ‘meu amante’. Não é nada patológico, apenas uma analogia que fiz desde que li alguma coisa sobre Freud pela primeira vez.

Lou, como era intimamente chamada, nasceu em São Petersburgo, Rússia, em 12 de fevereiro de 1861, sendo a sexta criança da família. Seu pai era o general oficial do czar russo, Gustav von Salomé, por quem nutria um amor profundo, o considerando como o “primeiro modelo de Deus”. Seu pai era um moço tido como afetuoso. A mãe, Louise Wilm von Salomé, era doce, profundamente religiosa e ligada à família, com grande capacidade de resolução e temperamento independente. O amor entre o casal era intenso, tanto é que o general resolveu dar “o nome mais belo do mundo” à sua primeira menina.

Lou via na mãe uma concorrente ao amor do pai, vivendo um verdadeiro Complexo de Édipo. Considerada rebelde, sempre se chocava com a autoridade materna.

Durante sua infância, foi uma criança bastante devota a Deus, que era tido como seu amigo invisível: “Eu não falava só de mim a Deus, de noite, no escuro: eu lhe contava, generosamente e sem ser convidada a isso, histórias inteiras. Essas histórias eram bem especiais. Elas provinham, parece-me, da necessidade que eu experimentava, de fazer o bom Deus participar do mundo exterior, tão presente ao lado de nosso mundo secreto; realidade da qual esta extraordinária relação me separava mais do que fixava solidamente. Não era, pois, por acaso que eu tirava dos acontecimentos reais a matéria de minhas histórias, dos encontros com pessoas, com animais, com objetos; Ter Deus como ouvinte bastava para assegurar-lhes um caráter feérico, que eu não precisava assinalar; tratava-se, ao contrário, de se convencer com precisão da realidade. Claro, eu não podia contar nada que Deus, em sua ciência e poder infinitos, já não o soubesse; mas era justamente o que garantia a meus olhos a realidade indubitável de minhas histórias, e era por isso que, não sem satisfação, eu começava sempre por essas palavras: Como tu sabes…

lousalomePastor Hendrik Gillot

Quando mais amadurecida, ela abandonou seu amigo invisível, se tornando mais dura e exigente consigo mesma, principalmente depois de ouvir o que o pastor Hendrik Gillot tinha a lhe dizer.

Ele foi procurado por Lou, que possuía infinita vontade de aprender, bem na época do falecimento de seu pai. O espírito curioso de Lou chamou a atenção de Gillot, que lhe ensinou filosofia, lógica, teoria do conhecimento, metafísica, teologia. Ensinou também literatura francesa e filosofia alemã. Aconselhou-a a ler Descartes, Pascal, Voltaire, Rousseau e Kant, dentre outros.

O pastor era considerado excessivamente liberal e, por isso, a mãe de Lou tentou fazer com que sua filha se afastasse dele, em vão. Um tempo depois, Gillot, já casado e pai de duas filhas, com idades próximas da de Lou, se declarou para ela, pedindo-a em casamento. Louise ficou chocada com o fato, porque o via como um sósia de Deus.

“O que eu havia adorado desertou, de uma vez, de meu coração e meu espírito, e se tornou estrangeiro para mim. Sentir algo que possuía exigências próprias, e não se contentava apenas com realizar as minhas, mas, ao contrário, as ameaçava e buscava mesmo desviar do caminho reto os esforços que eu fazia para me encontrar, e pelo qual ele era responsável. Era realmente um outro homem que estava diante de mim; um homem que eu tinha divinizado e que, sob esse véu, eu não tinha podido perceber claramente.

Lou optou por renunciar aos encontros com Gillot, apesar de continuar considerando-o um grande amigo. Aos 19 anos, Lou deixou São Petersburgo, levando consigo sua fome de conhecimento. Após breve passagem por Zurique, onde o clima não favoreceu sua saúde, mudou-se para Roma. Munida de uma carta de recomendação, procurou Malwida von Maysenburg, uma mulher que abrira mão de títulos de nobreza para dedicar-se à “ajudar a emancipar a mulher dos limites que a sociedade lhe impôs”.

Paul Rée

Na casa da feminista, Lolousalome4u conheceu Paul Rée, que tinha 32 anos, era filósofo e já havia publicado três livros. Rée assistiu a alguns cursos de Nietzsche, de quem tornou-se grande amigo. A primeira conversa entre  Paul Rée e Lou foi definitiva para o início dos laços de amizade.

O sentimento que ligou Rée a Lou não demorou a se transformar em amor. Mas, unilateral. Lou admirava Paul Rée. Tinha até um plano ousado para a época – passarem a morar juntos, mas como amigos. Obviamente que a ideia foi reprovada pelas mães de ambos, que expuseram que tal acontecimento daria lugar a comentários que atingiriam a reputação da jovem.

Rée e Malwida haviam escrito para Nietzsche sobre a nova amiga. Ambos a descreveram com grande entusiasmo. Rée convidou o amigo para ir até Roma com o objetivo de conhecer Lou e acrescentou que pensavam em organizar uma comunidade, onde os três estariam juntos. Nietzsche aquiesceu. Chegou à Roma de surpresa e Malwida indicou o provável local onde acharia os amigos – uma pequena capela anexa à catedral de São Pedro.

Nietzsche

Nietzsche aproximou-se do casal, absorto em suas leituras, estendeu a mão em direção a Lou e perguntou: “De que estrelas caímos nós para nos encontrar aqui?”. Foi nesse momento que teve início o triângulo amoroso.

Nietzsche teve a ideia de desposá-la, porém foi orientado pelo amigo, por sugestão de Lou, Paul Rée contou ao amigo que Lou tinha aversão pelo casamento. Além disso, havia o problema financeiro. Lou recebia uma pensão do governo russo após a morte do pai, à qual perderia o direito após um casamento. Como Nietzsche não tinha boas condições financeiras, esse argumento acalmou seus propósitos, sem, no entanto, eliminá-los.

Em fins de abril de 1882, Lou e a mãe viajaram para o norte da Itália. Nietzsche e Rée foram encontrá-las em Milão e juntos foram para a região dos Alpes. Nietzsche teve a oportunidade de ficar a sós com Lou , enquanto a senhora Salomé e Rée descansavam no hotel.

Os dois decidiram fazer uma caminhada até o Monte Sacro, uma colina encantadora de 915 metros. O passeio durou bem mais que a uma hora prevista. O que aconteceu durante o passeio foi mantido em segredo. Nietzsche escreveu para Lou: “eu devo a você o sonho mais bonito de minha vida”. E Lou disse anos depois: “não me lembro se beijei Nietzsche em Monte Sacro”. Pouco depois, os quatro se separaram. A senhora Salomé, a filha e Paul Rée foram para Locarno e Nietzsche visitou os amigos Overbeck em Bâle. Os amigos ficaram surpresos com a boa forma do filósofo. Viam-no sempre em crises e dessa vez mostrou-se conversado, feliz e confiante.

Pedido de Casamento

Foi em Lucerne que o grupo se encontrou trionovamente. E foi lá que os três tiraram a fotografia que ficou famosa (ao lado). Nela Lou estava sentada numa charrete segurando um chicote, enquanto os amigos estavam na frente da charrete, presos à mão de Lou através de cordas.

Nessa ocasião, Nietzsche propôs casamento para Lou, que rejeitou prontamente a ideia. Mais uma vez, o grupo separou-se. Lou viajou para Berlim com o irmão mais novo. Rée foi para a propriedade da família em Stibbe, na Prússia Ocidental. Por sua vez, Nietzche, após breve passagem por Bâle, oportunidade em que os Overbeck constataram o seu desespero, foi para a casa de sua família em Naumburg. A correspondência entre os amigos ficou mais intensa nesse período.

lousalome3Cartas entre amigos

As cartas de Rée para Lou exprimiam seu imenso carinho, evidenciando o grande amor que sentia. Nietzsche era mais reservado com relação aos sentimentos, tentando esconder a tristeza que a distância de Lou lhe causava e o abatimento que a recusa da amada lhe causou. Lou era sempre a mesma: espontânea, despreocupada, com sede de viver, deixando-se amar. Lou foi passar o verão em Stibbe, devidamente escudada pela mãe de Rée. Lá os amigos passaram dias felizes, fortalecendo a amizade entre os dois.

Irmã de Nietzsche

Em julho, Lou deixou Stibbe e se dirigiu para Bayreuth, onde Malwida a esperava para juntas assistirem ao festival. Lá encontrou pela primeira vez a irmã de Nietzsche, com quem já trocara algumas cartas. Elizabeth Nietzsche era uma bela mulher de 36 anos. Protestante rígida, ficou chocada com a liberdade de pensamento de Lou, sua preferência pela companhia masculina, seu sucesso junto aos homens. Já não gostava de Lou, antes mesmo de conhecê-la, pois sentia ciúmes do irmão. Apesar disso, viajou com Lou para Tautenburgo, onde Nietzsche passava o verão.

Mas, estava disposta a proteger o irmão da mulher “imprópria”. A cada dia, Elizabeth se escandalizava mais com Lou: como uma mulher podia falar tão abertamente sobre Deus, sexo, moral? Além disso, desaprovava os longos passeios que fazia com Nietzsche pela floresta e o fato do irmão permanecer no quarto de Lou até tarde.Nietzsche, mesmo sentindo a tensão ao redor, estava muito feliz. Jamais conversara com tanta profundidade sobre todos aqueles assuntos que o interessavam com uma mulher, ainda mais uma mulher jovem e bela. Queria transformá-la em sua discípula, queria que Lou pudesse ser a herdeira de suas ideias. Quanto a Lou, encontrava-se totalmente atraída, mas não pelo homem, somente pelo filósofo, que alimentava a sua fome de saber.

Ela não se preocupava com o mal que poderia estar causando ou vir a causar a uma pessoa extremamente sensível. Nas cartas que escrevia a Rée, além de contar o dia a dia, analisava a comunhão espiritual e intelectual que descobrira ter com Nietzsche.A estada de Lou em Tautenburgo provocou um rompimento entre os irmãos Nietzsche, o qual Elizabeth fez questão de tornar público. Escreveu para os amigos do irmão longas cartas denegrindo a imagem de Lou, distorcendo fatos, criticando, julgando.

lousalome6Despedida

Ao deixar Tautenburgo, Lou entregou a Nietzsche um poema que havia escrito meses antes. Este texto foi musicado pelo filósofo:
Claro, como se ama um amigo
Eu te amo, vida enigmática –
Que me tenhas feito exultar ou chorar,
Que me tenhas trazido felicidade ou sofrimento,
Amo-te com toda a tua crueldade,
E se deves me aniquilar,
Eu me arrancarei de teus braços
Como alguém se arranca do seio de um amigo.
Com todas as minhas forças te aperto!
Que tuas chamas me devorem,
No fogo do combate, permite-me
Sondar mais longe teu mistério.
Ser, pensar durante milênios!
Encerra-me em teus dois braços:
Se não tens mais alegria a me ofertar
Pois bem – restam-te teus tormentos.
Os três encontraram-se novamente em Leipzig. No começo, tudo corria bem, apesar do clima não ser exatamente o mesmo de outrora. Cada um deles trabalhava em algum projeto. Lou fazia um estudo sobre a história das religiões, que Nietzsche lia e comentava. Ele a achava “um pequeno gênio” e ficava feliz em colaborar com o trabalho. Depois, Nietzsche começou a tecer duras críticas ao rival. Pouco a pouco, Lou foi perdendo o encanto pelo filósofo.Assim, Lou e Rée partiram para Paris, onde passaram a dividir a mesma casa, sempre como amigos, contrariando as expectativas de Rée, a quem Lou via como um irmão. Nietzsche escreveu várias cartas mostrando a sua amargura e revolta, nas quais falava sobre um possível suicídio.
Como sua amizade é mirrada, ao lado da do amigo Rée! Como você é demunida de respeito, de gratidão, de piedade, de polidez, de admiração – pudor – sem falar de coisas mais elevadas. Que responderia se eu lhe perguntasse: você é corajosa? É incapaz de traição? Não tem consciência de que um homem como eu, junto de você, deve fazer grandes esforços sobre si mesmo? Eu poderia facilitar as coisas em minhas relações com você: mas já fiz muito esforço sobre mim mesmo, com relação a muitas coisas, e me acredito ainda capaz disto: lhe ser útil, mesmo se você me prejudica. Você tem em mim o melhor dos advogados, mas também o mais impenitente dos juízes. Quero que você julgue a si própria e fixe, você mesma, seu castigo. Minha cara Lou, tome cuidado! Se eu afasto você de mim agora, será uma terrível censura de todo o seu ser! Você esteve em contato com um dos homens mais indulgentes e mais bem intencionados: mas note bem que o nojo é para mim um argumento suficiente contra todos os pequenos egoístas e todos os pequenos fruidores. Sou vencido pelo nojo mais facilmente do que as pessoas o creem. Mude de opinião, volte a você mesma! Nunca me enganei sobre ninguém: e há em você esta aspiração a um egoísmo sagrado que é uma aspiração à obediência com relação ao que há de mais alto – e você a confundiu, em razão de não sei que maldição, com seu contrário, o apetite ladrão do gato, da vida unicamente pelo amor da vida. Quem poderá ainda freqüentar você, se você solta o freio a todos os traços mesquinhos de sua natureza! Você prejudicou, você fez mal – não somente a mim mas a todos os que me amavam – esta espada está suspensa acima de sua cabeça.
Elizabeth Nietzche, sabendo do sofrimento do irmão, retomou sua campanha contra Lou. Achava o maior dos absurdos sua coabitação com Rée. Nietzsche sofria com tudo isso, mas acabou juntando-se à irmã. Tudo isso não afetou Lou, que não revidou aos ataques sofridos, permanecendo silenciosa e independente.
Amizade profunda
Lou e Rée viveram juntos em Berlim, depois de uma temporada em Paris, por cinco anos. Sempre como irmãos. Foram bons anos para Lou e Rée. Ela encontrou no amigo um companheiro “de uma nobreza de alma absolutamente única”. Os amigos brincavam que Rée era a dama de companhia de Lou. O temperamento alegre da amiga refletiu em Rée, que mostrava-se menos atormentado e mais confiante. Foi nessa época que começou seu sucesso como escritora, com o livro “Uma luta por Deus”, o qual assinou como Henri Lou.
andreasCasamento
Lou tinha 26 anos quando conheceu o professor de língua persa Carl Andreas, quinze anos mais velho. Para espanto de todos, o casamento aconteceu em junho de 1887. Lou sentiu-se na obrigação de aceitar o segundo pedido de casamento, após uma tentativa de suicídio de Andreas. Mas, foi um casamento estranho, que de fato nunca se concretizou. O acordo entre os dois previa que Andreas não faria valer seus “direitos” de marido. Nunca houve contato físico. Além disso, Andreas deveria respeitar a liberdade da esposa e ficou acertado que as relações entre Lou e Rée não mudariam.
Rée
Apesar de Rée aparentemente ter concordado com a situação, um profundo mal estar surgiu. Rée, então, decidiu mudar-se de Berlim.”A noite em que ele me deixou se inscreveu em letras de fogo na minha memória. Ele partiu muito tarde, voltou ao cabo de alguns minutos porque chovia muito. Depois de algum tempo ele partiu de novo, mas não tardou em voltar para apanhar um livro. Quando se foi, a aurora rompia. Olhei para fora e me surpreendi: a rua estava seca e pálidas estrelas rareavam num céu sem nuvem. Afastando-me da janela, vi, à luz da lâmpada, uma pequena fotografia de mim criança, que pertencia a Paul Rée. Ela estava colocada num pedaço de papel dobrado onde li: Tem piedade, não procura.
Um ano após a partida de Rée, Lou registrou em seu diário a falta que o amigo fazia:
Às vezes acontece que meus gestos ou minhas palavras se assemelham aos teus – sem o querer, por acaso – sinto sempre nesses momentos que me és querido. Lembro-me que um dia, bem no meio de uma briga me disseste com um misto de bondade e ironia: “se nós brigássemos de verdade e anos depois por acaso a gente se encontrasse – que felicidade seria para todos dois!” E teus olhos se encheram de lágrimas. Penso muito nisso atualmente e me digo: Sim, sim.”
Trabalhos
Nos primeiros anos de casada, Lou escreveu Personagens femininos de Ibsen. Na introdução, ela contou a história de patos selvagens, que ignoravam o que seria o mundo fora do ambiente em que foram criados – um sótão.
Após o sucesso desse livro, Lou começou a escrever com mais frequência. Em 1894 escreveu Friedrich Nietzche em sua obra e, em 1895, o romance Ruth.
Primeira vez
Também em 1895, Lou conheceu o médico vienense Friedrich Pineles, que tinha então 27 anos. Pelo que parece, este foi o homem que desvirginou Lou. Essa ligação durou cerca de doze anos. Toda vez que Lou ia a Viena, hospedava-se na casa de Pineles. Este insistia sempre em que ela pedisse o divórcio para que pudessem realizar o casamento.
Rilke
Em maio de 1897, Lou foi apresentada ao poeta René-Marie Rilke, quatorze anos mais jovem que ela. No dia seguinte, ele escreveu um bilhete, contando que era o autor de poemas anônimos que Lou estava recebendo e que considerava que a havia conhecido meses antes da noite anterior, quando leu o ensaio escrito por ela, chamado Jesus o judeu. Pediu, então, para conhecê-la melhor. Nos dias que se seguiram, Rilke continuou assediando Lou, através de cartas, telegramas e bilhetes.
Ontem ao meio-dia havia bastante sol para dourar todo um reino – mesmo um reino pobre e não muito pequeno. Mas o ouro apenas não basta. Eu estava muito triste. Errei, algumas rosas na mão, pela cidade e à entrada do jardim inglês, para lhe oferecer estas rosas. Sim, em vez de as depositar diante da porta de chave dourada, carreguei-as comigo por toda a parte, tremendo com a necessidade de encontrá-la em algum lugar. Entretanto, foi mais ou menos quando se joga uma carta ao mar, para que as vagas a conduzam até as margens do amigo para quem se destinou. A carta está certa de se perder ao largo e afundar. O mesmo com minhas rosas. Ao meio-dia, quando abandonei estas buscas e vi o rosto triste das pálidas flores, a angústia dolorosa da solidão me invadiu.
Amor
A abundante correspondência entre os dois só terminou com a morte de Rilke: 134 cartas e bilhetes de Rilke e 65 de Lou. A passagem de Lou na vida de Rilke foi de fundamental importância para o crescimento do poeta – ela lhe ensinou a buscar a essência das coisas. E Lou, pela primeira vez em sua vida, encontrou um homem que a atraía intelectualmente e fisicamente. Algumas semanas depois do primeiro encontro, alugaram uma casinha nos arredores de Berlim. Logo depois se mudaram para uma espécie de granja, numa colina, em Wolfratshausen. Ficaram ali durante o verão e receberam Andreas no outono. Enquanto este passava horas trancado no quarto estudando, Lou e Rilke passeavam pela floresta, discutindo os projetos de vida. Foi Lou quem decidiu que o nome René-Marie era muito feminino, mudando-o para Rainer Maria. Em abril de 1899 Lou, Andreas e Rilke foram para a Rússia. Passaram uma semana em Moscou, onde foram recebidos por Tolstoi durante duas horas. Depois, dirigiram-se para São Petersburgo, onde Rilke conheceu a família de Lou. A redescoberta do país natal ao lado do homem amado fizeram com que Lou desabrochasse por completo: “Hoje posso ser o que os outros são aos dezoito anos, hoje posso ser eu mesma“. Quanto a Rilke, começou a produzir de modo intenso.
Depois de dois meses, o trio retornou para a Alemanha. Mas, a experiência da viagem foi tão marcante, que nova viagem à Rússia aconteceu um ano depois, desta vez sem a presença de Andreas. Rilke sentiu o amor pelo país de Lou mais vivo. Reencontraram Tolstoi, mas desta vez este mostrou-se distante, inclusive criticando negativamente a poesia. Atravessaram o país, vendo paisagens encantadoras. Eram recebidos por camponeses, que davam lições de simplicidade, absorvidas com prazer por ambos. Tentaram rever a família de Lou em São Petersburgo, mas estavam na residência de verão, na Finlândia. Lou decidiu partir para a Alemanha e deixou Rilke sozinho na cidade natal. Na verdade, Lou estava um pouco apreensiva com os estranhos acessos de depressão e exaltação de Rilke. Sentia que o poeta deveria conquistar sozinho o domínio de si mesmo.
Distância
Longe de Lou, Rilke resolveu passar algumas semanas na casa de um amigo. Foi quando conheceu Clara Westhoff, uma escultora aluna de Rodin. Ele a pediu em casamento, surpreendendo Lou, que lhe escreveu uma carta alguns dias antes das núpcias. “Agora que tudo é sol e calma ao redor de mim e que o fruto da vida conquistou sua redondeza madura e doce, a lembrança que nos é certamente ainda cara a nós dois daquele dia de Waltershausen, em que vim a ti como uma mãe, me impõe uma última obrigação (…) Se te aventuras livre no desconhecido só será responsável por ti mesmo“.
Pouco depois, recebeu o seguinte poema escrito por Rilke:
Permaneço no escuro como um cego
Porque meus olhos não te encontram mais
A faina turva dos dias para mim não é mais que uma cortina que te dissimula.
Olho-a, esperando que se erga esta cortina atrás da qual há minha vida a substância e a própria lei da minha vida e, apesar disso, minha morte.
Tu me abraçavas, não por desrazão mas como a mão do oleiro contra o barro
A mão que tem poder de criação.
Ela sonhava de algum modo modelar – depois se cansou, se afrouxou deixou-me cair e me quebrei.
Eras para mim a mais maternal das mulheres, eras um amigo como são os homens, eras, a te olhar, mulher realmente, mas também, muitas vezes, criança.
Eras o que conheci de mais terno e mais duro com que tenho lutado.
Eras a altura que me abençoou – te fizeste abismo e naufraguei.
Rilke casou-se com Clara em março de 1901, fato que não interrompeu a correspondência com Lou. Escrevia sempre, contando as alegrias e tristezas, aconselhando-se, buscando apoio, enviando poemas para críticas. “Ninguém me conhece como tu“, escrevia Rilke. O poeta amadurecia, mas o homem permanecia carente de conselhos e proteção.
Morte de Paul Rée
No mesmo ano do casamento de Rilke, aconteceu a morte de Paul Rée – uma morte com a qual Lou sofreu pelo resto da vida, sentindo-se de certa forma responsável, pois pairava a suspeita de suicídio. Pineles, consultado sobre o abatimento de Lou, recomendou-lhe repouso e passeios.
Gravidez
Foram juntos para o Tirol, onde Lou descobriu-se grávida. Pineles decidiu contar para Andreas, desejando que ele concedesse o divórcio. Lou não permitiu, alegando que Andreas poderia atentar contra a vida do médico. Mas, a gravidez foi interrompida como consequência de uma queda sofrida por Lou ao colher maçãs. Foi o início do enfraquecimento da relação entre os dois, a qual durou alguns anos mais.
Amor e Sexo
Essas experiências levaram Lou a refletir sobre o amor e o sexo. Ela publicou em 1902 um livro de contos, Na zona crepuscular e em 1910 o ensaio denominado O erotismo.”Na base do erotismo está a sexualidade, lembra Lou, e ela é uma forma de necessidade física, como a fome, a sede ou qualquer outra forma de manifestação de vida de nosso corpo. Como ainda se conhece pouco – não esqueçamos que o artigo é de 1910 – parte do mecanismo que a produz, isto é, as glândulas de secreção interna, não podemos nos dar conta da influência da sexualidade sobre a totalidade do indivíduo, mesmo quando a atividade sexual dirigida para o exterior desaparece, como, e Lou cita exemplos, quando se elimina a matriz ou o membro viril e nesses casos os ovários e testículos permanecem, fazendo com que não desapareçam os caracteres sexuais secundários. A pulsão sexual pode ser um elemento de estímulo na totalidade da vida dos sentidos, escreve Lou, lembrando o caso de jovens doentes para os quais a experiência da sexualidade foi fator de cura, ou de moças anêmicas que desabrocharam, mesmo num casamento não desejado, adquirindo forças sob a influência de modificações em seu metabolismo.
freudFreud
Durante a primeira grande guerra, Lou estava na Alemanha, ao lado de Andreas. Dificuldades financeiras, notícias de mortes de parentes e amigos, acontecimentos tristes… Embora perturbada, Lou conservava seu característico otimismo, o qual Freud tanto admirava. A Revolução de Outubro de 1917 fez com que Lou perdesse a pensão que recebia do governo russo, por ser filha de general, que a ajudou a manter-se durante tantos anos. Soube que a família foi obrigada a compartilhar a residência com os empregados. Essas novas experiências pelas quais passava o país natal fizeram nascer em Lou a nostalgia, que ela retratou no livro escrito em 1923 – Rodinka (A pequena pátria), dedicado a Anna Freud, filha do pai da psicanálise. Os anos foram passando e Lou foi dividindo o seu tempo entre congressos, reuniões sobre psicanálise e seus pacientes, além de escrever artigos para revistas especializadas.
Em 1928, dois anos após a morte de Rilke, ela escreveu a biografia do poeta. Em 1931, tornou pública sua gratidão para com Freud, publicando o livro Carta aberta a Freud, quando este completava 75 anos. Nesse livro, através de uma suposta conversa com o amigo, ela contou suas experiências como analista e abordou questões colocadas pela psicanálise.
Morte de Andreas e a descoberta do Diabetes
Andreas morreu ao 85 anos e Lou começou a sofrer de diabetes. Ela presenciou a Alemanha enlouquecendo com as idéias de Hitler, que não simpatizava com Freud. Os amigos aconselharam-na em vão a mudar-se do país. Com problemas de visão, consequência do agravamento do diabetes, pediu ajuda ao amigo fiel da última fase da vida, Ernest Pfeiffer. Entregou a ele todos os seus papéis e correspondência para que os publicasse postumamente.
Morte
Na noite de 5 de fevereiro de 1937, morreu durante o sono, dois anos antes de Freud. Foi cremada e suas cinzas foram depositadas no túmulo de Andreas. Dias depois da morte, a Gestapo confiscou seus livros e papéis, por considerar a psicanálise um ciência judaica.Postumamente, Ernest Pfeiffer publicou quatro livros de Lou, incluindo a autobiografia intitulada Revendo minha vida.
Sua relação com Freud
O que não foi falado sobre sua relação com Freud é que Lou o conhece em um Congresso. Ela o seduz por seu espírito vivaz, sua calorosa humanidade e sua beleza. Foi lá, o começo de uma longa amizade.
congresso
Como discípula de Freud, ela estava em busca da modernidade e do que era o ser humano no momento em que Deus estava morrendo e quando se nascia fechado para si mesmo. E foi em sua vida que Lou quis realizar as grandes paixões. Ela sempre foi na direção do que havia de mais interessante no plano intelectual. Ela conheceu Nietzsche muito nova e ele ficou completamente apaixonado por ela. Mas, ela não se tornou sua amante. Não era isso que a interessava. Durante um certo tempo, ela resolve viver com os homens (Nietzsche e Rée) em amizades platônicas, de forma a criar uma espécie de banquete platônico de ideias.
Ela chegou a Viena com a firme intenção de se iniciar na psicanálise, na qual encontrou a doutrina que buscava. A partir do momento em que se aprofunda, torna-se psicanalista e para de escrever romances.
Entre Lou e Freud, nasce uma relação privilegiada feita de confidências e de amor recíproco. Ele tem por ela uma verdadeira admiração e a olha como se fosse seu alter ego. A aceita entre os íntimos e é recebida com ardor na Sociedade da Quarta-feira. Ela se instala em Gottingen, onde pratica a psicanálise e troca belas cartas com Freud.
Cara Lou, senti a sua falta ontem à noite na sessão. Acostumei-me a sempre dirigir a palavra a uma determinada pessoa do meu círculo de auditores e, ontem, não parei de fixar, fascinado, aquele lugar vazioque lhe reservamos.
28 de junho de 1914.
Cara amiga, escrevo-lhe ainda sob o impacto do assassinato de Sarajevo cujas consequências são totalmente imprevisíveis. Creio que a participação pessoal tenha pouca importância nesse caso.
Dois meses depois, estourava a I Guerra Mundial. Como milhões de homens, Freud não acredita na duração desse conflito, e é solidário ao destino de seu país.
Passada a época das ilusões, em uma carta a Lou, Freud demonstra pessimismo.
Sei que a humanidade irá se recuperar desta guerra, mas eu e meus contemporâneos não veremos um mundo feliz. E o mais triste é que tudo acontece como a psicanálise poderia ter previsto a partir do seu conhecimento do Homem e de seu comportamento.
Considerações finais
Eu até entendo essa naturalidade aparentemente ingrata de Lou. Não sei por que, mas entendo. Aliás, qual mulher nunca se sentiu bem em uma disputa amorosa, ou simplesmente por ser admirada? Por outro lado, ela nutria um interesse sempre maior pelo saber, que sempre foi seu foco.
Penso que Lou foi uma mistura de tudo o que uma mulher deve ser: encantadora, segura e independente. Alguém capaz de conquistar não somente pela beleza, como também pela capacidade intelectual de provocar frenesi nos homens mais sensíveis e, da mesma forma, inteligentes. Uma mulher que sabe o que quer e vai até o fim. Busca a sabedoria e não a abandona nem no fim dos seus dias. Alguém que, mesmo sendo julgada, não deixou de ser leal às suas próprias convicções, sem abandonar o amor próprio e a paixão pela vida. Amou de forma intensa e com legitimidade, promovendo a liberdade tão desejada nos dias atuais. Entendeu que a felicidade não é aprisionar, mas libertar. Começou a prática do existencialismo, sem o mencionar, nas entrelinhas da psicanálise.
Michelly Ribeiro
Fontes
Esse texto foi escrito a partir de algumas pesquisas, com trechos da bibliografia encontrada no endereço online: http://eternamentelou.blogspot.com.br/2007/09/lou-salom-uma-biografia.html e do documentário “A invenção da Psicanálise“.
Lou Andreas Salomé – por Luzilá Gonçalves  Ferreira (do livro Os Sentidos da Paixão):

Lou Salomé: uma prática de paixão; alguém que viveu a paixão com paixão, e talvez por isso mesmo provocou, até uma idade avançada, o nascimento da paixão nos seres que encontrou em seu caminho: Rilke, Nietzsche, Paul Rée, Tausk e, ao que parece, até mesmo Wagner sucumbiram ao seu encanto e à alegria de viver que transpirava em cada um de seus gestos – e o próprio Freud não parece ter sido indiferente à graça da discípula que ele qualificou de “raio de sol’.

A paixão de Lou pela vida transparecia em seu próprio físico. Freud lhe escreveu um dia: “você tem um olhar como se fosse Natal”. E a escritora Helena Klinkberg (citado por Peters): “O sol se levantava quando Lou entrava numa sala”. Era um ser luminoso, transparente e lúcido, daquela lucidez talvez de que fala João Cabral de Melo Neto a respeito de Monsieur Teste: “uma lucidez que tudo via, como se à luz ou de dia”. Um ser humano para quem a felicidade é condição natural e destino do homem: “dentro da felicidade eu estou em casa”. E ainda: “A única perfeição é a alegria”.

Essa paixão pela vida, ela a transmitia aos outros, fazendo com que as pessoas ao seu contato desenvolvessem e dessem o melhor delas próprias. O que fez alguém escrever: “Quando Lou se interessa apaixonadamente por um homem, nove meses depois este homem dá à luz um livro. Um interesse pelo outro que o leva a crescer e produzir – mesmo quando esse crescimento e essa produção implicam o sofrimento.

Pois Lou Andreas-Salomé conseguiu realizar, em seus 76 anos de vida, o que nós todos gostaríamos e deveríamos fazer sempre – e não o fazemos por descaso, indolência, medo: tornar a vida o exercício apaixonada de uma busca. Sua exploração em todos os possíveis. Isto que requer a fruição intensa e incessante de coisas e pessoas que nos cercam, de modo que o mundo exterior em nós penetre e a nós se incorpore. Pois a vida, como o dizia Rainer Maria Rilke a propósito de Rodin, “está nas pequenas coisas como nas grandes: no que é apenas visível e no que é imenso”.

Ouse, ouse… ouse tudo!!! Não tenha necessidade de nada! Não tente adequar sua vida a modelos, nem queira você mesmo ser um modelo para ninguém. Acredite: a vida lhe dará poucos presentes.

Se você quer uma vida, aprenda… a roubá-la! Ouse, ouse tudo! Seja na vida o que você é, aconteça o que acontecer. Não defenda nenhum princípio, mas algo de bem mais maravilhoso: algo que está em nós e que queima como o fogo da vida!!!” (Lou Andreas Salomé)

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