Extraordinário


Algumas pessoas nos tocam, e há incontáveis motivos para isso. Mas, o principal deles, o norteador de todos os motivos que, a meu ver são secundários, é a história de vida pessoal, porque é ela a linha condutora dos nossos afetos, que nos direciona tendenciosamente a determinadas situações e escolhas. Não que sejamos inteiramente determinados, mas possuímos algumas tendências naturais. Repetimos padrões de gerações anteriores, reproduzimos histórias de amor, profissões, amizades.

Então, me pergunto: como nos “curamos” de tudo isso? Será que a repetição é uma determinação? Como rompemos com padrões não muito positivos?

Penso que a resposta está justamente na afirmação inicial deste texto: há pessoas que nos tocam…

Sim! As histórias se cruzam, justamente porque nada é aleatório! Existe uma linha condutora de uma certa narrativa que, em algum momento de nossas vidas, se cruza com outra narrativa semelhante e, por alguma razão a priori desconhecida, nos encanta, nos fascina, mesmo que tal narrativa não nos alcance de início. Mas, a sentimos praticamente vibrando e nos chamando para caminhar em sua direção. É algo puramente energético e que, infelizmente, a Psicologia ainda não explica, exceto quando fala de inconsciente, mas ainda assim não atinge a transcendência de tudo isso.

Acontece que essa “cura” não é unilateral. Por vezes esbarramos em histórias de vida sem nos darmos conta de sua existência, justamente, porque estamos desatentos, ou distraídos e imersos em nossas próprias preocupações. Não nos damos conta que existe o outro, alguém que está tão perto e, ao mesmo tempo, longe de nós. Aqui, do meu lado, do seu lado, basta olhar!

Mas, parece que não vemos. Há razões também para isso, que bem explicou Bauman, ao abordar a liquidez das relações, entrelaçada ao individualismo dominante.

A “cura” se dá quando nos permitimos olhar para a vida de maneira antinatural, me utilizando um pouco da fenomenologia existencial, que nunca me abandona. E digo isso porque, por mais difícil que seja nos desprendermos de determinados padrões, justamente pela história de vida que carregamos, precisamos disso a fim de aprendermos a nos entregar ao momento, por inteiros, plenamente; pois, somente assim, seremos capazes de desfrutar dos prazeres de cada instante e não nos arrependermos quando a morte se aproximar. Olhar para cada instante como algo único, como um presente que, no momento seguinte, não poderá mais ser entregue ao seu destinatário. E nem sempre aceitamos o presente que recebemos por não atender a nossas expectativas ou por não corresponder aos padrões que alimentamos por anos.

São as surpresas do momento que nos “curam”, desde que as saibamos receber. Assim, é o outro que, ao se cruzar comigo me ajuda a cicatrizar feridas, desde que eu me abra para escutá-lo, enxerga-lo como se apresenta, sem idealizações ou máscaras, me envolvendo.

Dessa forma, posso dizer que existem pessoas que nos roubam de nós mesmos, mas não de forma negativa. Apenas nos colocando em outro lugar com ousadia. É como se nos obrigassem a sair do lugar comum em direção a outra história, ou outras histórias. E, quando nos permitimos sermos levados, percebemos que não existe apenas um ponto de vista, mas inúmeros outros, e tantos outros com os quais temos um universo para desbravar.

Isso me leva a pensar que certas mudanças são fundamentais. Sabe aquelas mudanças que sentimos que precisam acontecer em nossas vidas? Aquelas que nos envolvem por sincronicidades de fenômenos em torno de uma temática específica e que você sente que é o exato momento da transformação e que se você não se agarrar àquilo, sua tendência é se estagnar (ou acomodar)?…

E foi quando me deixei ser tocada pelas mais variadas histórias que se cruzaram com a minha que eu pude perceber o quanto posso ser uma ferramenta impulsionadora de realizações, e o quanto uma história se liga a outra por preposições, vírgulas, capítulos, conjunções, interrogações, exclamações! São vidas inteiras que se cruzam por palavras que se assemelham dando a liga da química do amor, e que se não são percebidas no contexto das entrelinhas, passam despercebidas.

Mas, também há narrativas que nos fazem perceber que somos multiplicidade de fatores, amores, possibilidades, e que nesse instante não estamos os mesmos de ontem e, muito menos, os mesmos que seremos amanhã. Mudamos o tempo todo e não há nada de errado com isso. Minhas escolhas definem muito do que sou hoje, mas não definem quem eu sou de fato. Não há certo ou errado, mesmo que a sociedade afirme e insista em reforçar as convenções, como o casamento, por exemplo.

Não há certo ou errado justamente porque somos cercados por uma infinidade de narrativas que nos compõem a cada momento de nossas vidas. Não há certo ou errado porque somos possibilidade. E a exclusividade do ser humano é o poder de se transformar constantemente e nunca permanecer o mesmo.

Não há certo ou errado no amor; não há certo ou errado e não há culpados! Somos vontade de poder, somos deuses, somos perfectíveis, jamais perfeitos! Estamos em constante construção.

E essa é a graça da vida! Eu posso ser quem eu quiser, cruzar a narrativa que me couber naquele determinado momento, porque complementa a minha e me sinto bem e encaixada naquela história, porque me agrada, porque me comove, porque me atrai, porque me fascina…sem pressões, sem amarras, com liberdade!

Fico porque quero ficar. Saio quando quero sair. Me envolvo porque me sinto feliz com isso.

Então, às vezes me pego pensando nas pessoas…

Existem pessoas que nos roubam pelo olhar….aquele olhar apaixonado, que nos faz querer fugir para bem longe, aquele olhar de desejo que nos faz querer nos entregar para aquele momento e congelar o instante só para não passar… existem pessoas que nos fazem apaixonar e se apaixonam por nós, aquelas por quem faríamos tudo, e aquelas que nos apresentam uma espécie de libertação.

Existem pessoas que nos acalmam com o olhar, com a presença, nos fazendo querer ficar sempre mais…

Existem pessoas que nos olham com tanta profundidade que nos desestabilizam, ao mesmo tempo que nos transbordam.

Existem pessoas que nos cativam sem dizer sequer uma única palavra…outras que compartilham seu universo e nos encantam.

Existem pessoas que nos conectam com seu mundo por algo inexplicável, mas que sabemos porque sentimos ser muito intenso.

Existem pessoas que nos desacomodam, causam desconforto simplesmente por serem especiais para nós, nos fazendo enxergar além de tudo aquilo que achamos que conseguimos ver e nos levam a fazer coisas que jamais pensávamos fazer…

Existem pessoas que nos desorientam para depois reordenar a nossa rota em direção a um novo rumo, que não sabemos ao certo aonde dará, mas que temos a nítida sensação de que será bom, mesmo que possa não ser realmente…

Existe uma multidão lá fora esperando para nos conhecer e para ser conhecida, e para nos transformar e ser transformada. A gente só precisa se predispor com autenticidade, leveza e sem o olhar opressor tão enraizado no comportamento da sociedade. Sem aquele olhar preconceituoso, perverso e que gosta de excluir.

É tão mais bonito quando conseguimos unir histórias a partir de uma perspectiva multidimensional de vários pontos de vista que se cruzam para multiplicar experiências e promover mudanças significativas em múltiplas vidas…

É tão mais bonito quando nos permitimos ser a mudança que queremos ver no mundo e, dessa forma, conseguimos contagiar outras pessoas…

É muito mais bonito quando nos permitimos ser quem realmente somos, autênticos, verdadeiros, sem as amarras das convenções ou de tudo aquilo que nos dizem ser o melhor…quando somos livres, de fato.

Por que não?

(Michelly Ribeiro)

Assista ao vídeo, clicando na imagem abaixo:

extraordinario

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