A dor da separação na dependência emocional

Tempo de leitura: 13 minutos

A dor da separação na dependência emocional: Alguma vez você já sentiu a dor da separação? Com que frequência isso aconteceu (ou acontece) em sua vida? Já parou para analisar o padrão de todos os seus relacionamentos afetivos? Se isso é recorrente pra você, então talvez esteja vivenciando o que chamamos de dependência emocional.

Qual o tamanho da sua dor?

Qual o tamanho da sua dor? Você já parou para refletir sobre isso? O que acontece toda vez que um relacionamento termina? Ou quando, por algum motivo, você pensa que vai terminar sem que você queira? Quão mal você fica?

O que passa pela sua cabeça? “Não vou aguentar essa (ou mais essa) separação”? “Não vou conseguir ser feliz sem ele (a)”? “O que será de mim sem ele (a)”?

O que você sente? Angústia? Solidão? Tristeza? Amargura?

Já mapeou tudo isso?

Ansiedade de separação

A dor da separação na dependência emocional ou essa ansiedade de separação pode ter vários nomes dependendo da abordagem pela qual se escolhe analisar, e sua raiz está nas bases familiares ou naquilo que te fizeram acreditar a respeito do papel que o outro tem dentro de uma relação afetiva sexual. Ou seja, podem ter incutido em sua cabeça de maneira não consciente, partindo de uma interpretação que você teve, que você precisa do outro para ser feliz, que sem o outro você não é capaz de se sustentar, ou até que você é uma pessoa sem capacidade alguma de ser feliz sozinha.

E isso pode ter acontecido de diversas formas. Porém, quase todas têm por base a relação de seus pais, ou aqueles que tiveram esse papel em sua vida, e que foram suas referências. Veja que ninguém está falando de culpados ou de vítimas e algozes. Estou falando apenas que a criança aprende, no início de sua vida, pela observação.

Um exemplo disso é o vídeo abaixo, bastante conhecido, que trata da forma como um presidiário entendia o amor. Ensinaram para ele que amar alguém implica em bater, o que o levou a reproduzir esse comportamento em todas as suas relações. Assista abaixo:

A angústia de Freud

Estudando as angústias, Freud, o Pai da Psicanálise, chegou a uma conclusão: a angústia fala da ausência de um objeto de apego, da ausência de uma pessoa querida e amada. Aqui também estamos falando da dor da separação na dependência emocional. A falta, a ausência dessa pessoa ou o simples fato dela não estar ali ao lado gerava (dentro do bebê) a angústia. Dessa forma, a angústia é uma ameaça de que alguma coisa ruim (ou terrível) irá acontecer. E algo de mais terrível que pode ocorrer a uma criança ou a cada adulto que já foi criança um dia é a separação, a perda da pessoa amada.

Então, foi a partir da necessidade humana de proteção que surgiram estruturas (ou camadas) de defesas. Defesas essas que permitem ao ser humano a sobrevivência a tudo isso. Ou seja, trata-se de uma forma de não entrar em contato com essa dor. E isso pode acontecer quando nos fechamos para o amor, por exemplo, justamente porque, inconscientemente, sabemos que poderemos entrar em contato com essa angústia relativa à separação. Porque dói demais, eu nem me abro para essa possibilidade.

E por que dói? Minha compreensão é incapaz de me esclarecer essa dor. Então, eu bloqueio tudo o que julgo ser a causa dessa dor antes que ela me assole.

Ameaça de separação

Onde quer que exista uma ameaça de separação ou de perda, ou a dor da separação na dependência emocional, o indivíduo que carrega consigo uma memória de um amor que sofreu uma lesão narcísica (termo utilizado na psicanálise), pode reagir com angústia por essa separação.

Para Bowlby, um estudioso de temas relacionados às perdas, separação e vínculos, o homem não vive inteiramente no presente. À medida em que se desenvolvem, na criança, as capacidades cognitivas, ela se torna capaz de antecipar a possível ocorrência de muitos gêneros de situações, inclusive daquelas que reconhece como despertadoras de medo, que acontecem aos montes tanto em crianças quanto em adultos que fazem com que eles se antecipem. Porém, nenhuma delas é mais aterradora do que a possível ausência de uma figura de apego ou a possível inacessibilidade dessa figura no momento em que possamos precisar.

People suffering from heartbreak and sadness

Quando a separação se torna um drama

A separação se torna um drama quando o autengano se sobressai à realidade. Um exemplo é quando uma pessoa acredita que o outro a completa e então, deposita todas as cartas nessa pessoa. Assim, ao ocorrer uma separação, por qualquer motivo que seja, o drama se torna o centro das emoções da pessoa que se autenganou e a dor é muito grande e profunda, já que ela depositou todas as suas fichas no outro. E não pense que ela percebe isso. O tamanho da sua dor mede também o tamanho da inconsciência para toda essa situação (ou falta de lucidez).

Desequilíbrios na relação

A medida em que essa relação se mantem, tendo começado pelo autengano que antecede a dor da separação na dependência emocional, uma série de desequilíbrios ocorre nessa relação, como desequilíbrio entre dar e receber, desequilíbrio na questão emocional (na forma de como um trata o outro), desequilíbrio em relação às vontades individuais (o quanto duas pessoas juntas conseguem realizar as vontades de um e de outro, pendendo sempre para mais um lado do que para outro).

Isso tudo vai levando a uma grande possibilidade de conflitos nesse relacionamento.

Dependência ou Codependência Emocional

Em relação à dependência ou codependência emocional, a pessoa que está nesse tipo de relação acima descrita pode nutrir uma esperança de que o outro pode mudar, mesmo diante de tantas insatisfações dentro da relação. Essa atitude leva a pessoa a manter relacionamentos acreditando ser ela capaz de mudar a pessoa. Assim, ela aceita traições do parceiro, argumenta de forma incessante a respeito de um mesmo assunto que ela quer que o outro mude, pensando que reforçando o fará compreender e então mudar.

Mudança de foco

O foco dessa pessoa está inteiramente voltado para o outro dentro do processo da dor da separação na dependência emocional, ou para que o outro mude a fim de que ela possa se sentir melhor. É uma armadilha criada pela própria pessoa, que não consegue ficar sem a outra, querendo a todo custo que a relação – que já não está funcionando – dê certo. E, muitas vezes, para não dizer que na maioria das vezes, essa relação pode ter sido muito mais idealizada por ela do que realmente concretizada como acontece em sua imaginação.

Ela precisa mudar o foco e voltá-lo para ela mesma, o que é uma dificuldade nata dessa pessoa dependente emocionalmente. As pessoas até podem mudar, mas elas não vão mudar por nossa causa, ou porque queremos que elas mudem. As pessoas mudam pelas experiências que vivenciam, as quais podem fazê-las refletir e ressignificar antigos padrões. E esse processo é singular, diferente para cada pessoa.

É justamente quando a pessoa que está na codependência percebe que é ela quem precisa mudar para mudar a forma de enxergar o contexto que ela está vivendo, então ela é capaz de criar condições para que essa relação ou avance ou decida terminar de maneira empoderada.

Mergulhada na codependência

Tendo por base que a pessoa que está mergulhada na dor da separação na codependência emocional, tende a se adaptar com facilidade ao que for necessário para sustentar uma relação: traição, desrespeito, desamor, falta de consideração, inclusive, violência de todos os tipos; a opção de sair dessa relação praticamente inexiste.

Com isso, essas pessoas tendem a “anestesiar” suas próprias emoções a ponto de não terem contato com elas próprias a fim de definir se estão felizes ou não. É como se ela entrasse em um papel que precisa desempenhar, continuando nisso para o resto da vida, caso não venha a tornar consciente essas formas que possui de se manifestar.

Libertar sentimentos reprimidos e negados

Para a grande estudiosa do tema e autora do livro “Para além da codependência”, Melody Beattie, um dos passos para a grande cura está em justamente sentir e libertar sentimentos reprimidos e negados. Ela afirma que passou muitos anos tentando forçar os outros a serem quem não eram e a fazerem o que não queriam fazer.

“Também tentei controlar meus sentimentos, empurrando-os para longe. Uma das maneiras como fiz isso foi tornar os sentimentos adormecidos e congelados. No meu congelador de sentimentos, tenho uma prateleira repleta da infância: como não lidei com os sentimentos de então, eles não foram embora. Ficaram armazenados. Alguns são grandes; outros, pequenos. Alguns estão armazenados há tanto tempo que foram queimados pelo frio. Estão armazenados nos tecidos do meu corpo, em mensagens e em comportamentos.

Interessante pensar que quanto mais reprimimos o que sentimos, nossa tendência é admitir que aquilo tudo faz parte de nós e acabamos por somatizar em doenças psíquicas e físicas.

O colapso da vida

Essa pessoa que vive a dor da separação na dependência emocional, ou aquela pessoa codependente, tem um colapso da vida quando o parceiro a deixa, podendo, inclusive, entrar em uma depressão profunda. Isso acontece principalmente quando a pessoa possui o agravante da baixa autoestima. Sim, a codependência emocional pode ocorrer em pessoas com uma autoestima elevada.

A codependência na autoestima elevada

A codependência na autoestima elevada ajuda a pessoa a perceber que, mesmo continuando a relação, ela não está feliz; ou até começa a perder a esperança e, de fato, enxergar a realidade a ponto de admitir que o outro não irá mudar. É como se ela já fosse capaz de olhar para a outra pessoa e dizer “eu não consigo me ver feliz ao lado dessa pessoa” ou “eu não consigo imaginar que existe algum caminho que a gente possa ser feliz junto”. Aí, já pode ser o início da redução da dor da separação na dependência emocional.

Com esse raciocínio, ela está caminhando na  direção de uma separação, o que não quer dizer que não seja dramático.

Separação

A pessoa que sofre da dor da separação na dependência emocional, antes da decisão pela separação, muita coisa ainda pode acontecer. Ela pode saber que precisa sair dessa relação, mas não consegue. É preciso entender que uma pessoa quando se encontra em um momento de “balança decisória”, ou seja, quando ainda é difícil tomar uma decisão, ela não deve pensar que tem que decidir algo rápido. É preciso dar-se um tempo de elaboração, reflexão, interiorização.

Muitas vezes, sozinha a pessoa não é capaz de fazer isso, e então é o momento de buscar ajuda especializada, o que é possível com um psicólogo, por exemplo.

A dor da separação na dependência emocional

Resumindo, a dor da separação na dependência emocional se manifesta quando o sujeito não se sente capaz de lidar com a separação porque existe uma necessidade do outro, ou do apoio emocional que o outro representa, seja pela segurança que ele passa, dentro de qualquer âmbito: financeiro, afetivo ou até os dois ou outros.

A dor da separação na dependência emocional é imensurável. É como se a pessoa ficasse sem chão justamente por ter o outro como a base de sua própria sustentação, o que é uma forma de se anular e, realmente, não entrar em contato com os próprios sentimentos, tamanha a dificuldade em lidar com eles. Assim, ocorre uma projeção dessa dificuldade de autossustentação no outro. É como uma transferência de responsabilidade mesmo, uma terceirização. Ou seja, eu não sei o que fazer com isso (com esses sentimentos todos), então, lida com eles pra mim e não me deixa entrar em contato com eles.

Aí, quando o outro sai de cena, sente-se a dor que não se queria sentir: a dor da separação e a dor de todos os outros sentimentos ocultos e desconhecidos do passado infantil, os quais foram reprimidos pela falta de arcabouço afetivo.

O amor no divã

Em 2016, publiquei um livro intitulado O Amor no Divã, em que abordei toda essa temática dramática do amor e suas várias fases (ou facetas), no âmbito das relações afetivo sexuais. A personagem principal vivenciou por várias vezes a dor da separação na dependência emocional.

Neste livro, abordei a vivência de uma mulher, a personagem Helena, em diversas relações. Ela estava em busca de si mesma em todas as relações, mas não se encontrava, justamente porque colocava o outro como barreira para não sentir tudo aquilo que precisava sentir e reprimia pela dificuldade de lidar com as próprias emoções. O encontro consigo mesma é sua única salvação, e isso ela descobre depois de muitos sofrimentos (ou relacionamentos dramáticos).

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Bibliografia recomendada:

BEATTIE, Melody. Para além da codependência: O que fazer depois que a dor passa e é preciso seguir. 1 ed. Rio de Janeiro: Viva Livros, 2013. 287 p.
BOWLBY, John. Separação: Angústia e Raiva. 4 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2004. 515 p.
FREUD, S. (1976). Repressão. In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (Vol. 14). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1915b).

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