Como o amor acontece?

Tempo de leitura: 10 minutos

Como o amor acontece? Falar de amor sempre foi algo muito fácil para mim, quase como respirar. Sempre bisquei entendê-lo, muito mais do que me permitir senti-lo, até que eu compreendi que ele é um sentimento em construção. Ele se constrói a cada nova relação, seja de amizade, relacionamento afetivo-sexual. O amor não se encontra, se constrói. E essa foi minha maior descoberta.

O texto abaixo foi postado com o título “Construção”, no meu antigo blog, em 16 de junho de 2017. Resolvi postá-lo hoje pelo que estou sentindo neste momento: muito amor dentro de mim querendo ser compartilhado. Então, compartilho com vocês que me leem. Fiz algumas adaptações neste texto a fim de que pudesse ampliá-lo.

Como o amor acontece?

Como o amor acontece? Ou como o amor se constrói? Sentir-se mais inteiro, aberto, espontâneo pode ser sinônimo de tranquilidade consigo mesmo, que pode estar em contato com quem realmente é.
Quando vamos ao encontro de algumas mudanças em na vida,é possível um reencontro com nossa própria essência.

E isso torna possível virar uma chave bem importante sobre as nossas relações de amizade, sociais e de amor. E, mais especificamente, sobre esse sentimento tão profundo, desejado por muitos, e que tão poucas pessoas chegaram tão perto. Inclusive, até acessá-lo é um processo de construção.

Um dia, cheguei em casa cheia de vida e repleta de amor para dar. Aí, foi quando comecei a entender que amar é tão simples. Não precisamos de muito.
O problema do amor está na carência que o anula. Quando estamos carentes de qualquer tipo de afeto, tendemos a fazer compensações e passamos a ter um foco muito voltado para o nosso ego. É como se qualquer outro que se encontre ao nosso redor e que expresse o mínimo de afeto fosse a dose certa para nos fazer voltar ao eixo de nós mesmos. Mas isso é ilusão!

A grande sacada do amor é que ele é feito sob medida, e nem todos estão preparados para percebê-lo, porque se perdem nas expectativas, na idealização do outro. E, por trás disso, está a ansiedade de que algo aconteça. A ansiedade que o outro te diga o quanto está interessado em você, que gosta de você. E esse sentimento, tão centrado no futuro repleto de irrealidades, fruto de uma carência afetiva, te cega para quem está a sua frente e que, de alguma forma, está te mostrando o tempo todo, através de sinais “não ditos”, ou até ditos, tudo o que carrega dentro de si. As atitudes podem significar um amor sincero, que só pode ser percebido pelos mais sensíveis e preparados realmente para sua construção.

 

Sim! Digo construção porque o amor jamais vem pronto em uma caixa de presentes. O amor é a construção mais bonita que duas pessoas podem fazer juntas. E essa construção se dá somente quando há um sincronismo das duas partes interessadas, quando passa a haver um interesse em comum, uma aproximação assertiva, assistencial, sem necessariamente uma ânsia por reciprocidade. O que está por trás em termos de ganho secundário é simplesmente o prazer de ver o outro bem. E essa troca envolvente, é paciente, singela. É uma troca desmedida. Basta estar atento e ter passado por experiências não tão boas, ou que tenham calejado, ou não sei… Mas é um sentimento, realmente, para poucos.

Viva mais o processo do que o resultado

Viva mais o processo do que o resultado. É preciso encontrar o prazer do amor. E o amor propicia prazer quando torna leva as coisas. Então, como o amor acontece? Quando passamos a aproveitar mais o processo de construção de uma história comum, com as bases firmes na confiança mútua, troca de afetos pelo simples prazer de estar junto, de ouvir e assistir; quando passamos a curtir essa construção sem a ansiedade daquilo que está por vir.

Como o amor acontece? Quando, de fato, nos propomos a conhecer o outro da forma como ele realmente é, exatamente como se apresenta, com todas as qualidades e defeitos, e inúmeros problemas e, depois de saber quem é esse outro ser, ainda assim decidimos ficar, permanecer, porque essa pessoa te permite ser quem você realmente é, sem máscaras, autêntica, leve e sem freios…então, pode-se dizer que se alcançou a essência desse sentimento.

E se essa construção se decidir por continuar por tempo indeterminado, a sensação é de como se nada precisasse ser dito, simplesmente porque as atitudes valem muito mais do que as palavras. Isso pra mim é evolução, liberdade…isso pra mim é o Amor!

As concessões do amor

Além disso, há outras questões que envolvem o amor: as concessões. Sim! Elas fazem parte do amor maduro, da natureza da anti-conflitividade do amor. Veja a lógica: se queremos o bem daquela pessoa com quem dividimos nossa intimidade, se queremos construir algo com ela, por consequência, vamos querer que ela também evolua, cresça, se fortaleça em suas escolhas. Vamos apoiá-la, mesmo que não concordemos com algo, afinal ela é livre para decidir. Logo, evitaremos o conflito e buscaremos a  conciliação. Dessa forma, a melhor solução são as concessões. A maturidade do casal permite com que ambos cedam quando seja necessário, dialoguem sempre que possível – ou todas as vezes – e busquem se compreender mutuamente.

Quando há excessos de discordâncias, a separação pode ser inevitável. Por isso, gosto de afirmar o seguinte: não tenha medo de ser amigo de seu parceiro afetivo. E se puder escolher um amigo como parceiro afetivo, melhor ainda!

A filosofia do Banquete de Platão

Para fechar esse texto, achei interessante trazer a reflexão da filosofia do Banquete de Platão e tentar fazer algumas associações de como o amor acontece para o filósofo. Nesta obra em questão, Platão descreve os discursos feitos pelos convidados do poeta Agatão. Nesse encontro de 380 a.C., nos deparamos com os personagens Fedro, Pausânias, Erixímaco, Aristófanes, Agatão e Sócrates. Como Platão não estava presente, o texto é baseado nos relatos dos convidados.

Nesse banquete em que os convidados estão, cada um opina sobre o amor, e todos fazem avaliações a respeito desse sentimento. E, no final, existe um discurso vencedor. Trata-se de um diálogo filosófico, escrito em prosa. Na obra de Platão, o Amor é uma entidade (o deus grego Eros)

Em resumo, Fedro se preocupa em revelar a natureza do amor e seus benefícios. Para Fedro, Eros é o mais antigo dos deuses e a causa dos maiores bens. Ele inspira os homens aos belos feitos, à virtude.

No segundo discurso, Pausânias afirma que não existe apenas um Eros, mas dois. É como se existissem duas formas de amor: uma etérea e outra, carnal. A primeira conduz ao mundo das ideias; e a segunda é aquela que ocupa o espaço das traições, da promiscuidade. Entre as duas formas de amor, ele considera a mais bela, a etérea. Defende o amor entre os homens, jovens e homens mais velhos porque, em sua visão, trata-se de um amor que conduz ao aprendizado.

Erixímaco realiza o terceiro discurso. Por ser médico, defende o amor saudável, a harmonia entre os corpos. Para ele, deve existir um equilíbrio entre o excesso e a moderação.

O quarto discurso é feito por Aristófanes, um comediógrafo famoso. Ele conta uma história dizendo que as pessoas eram autossuficientes um dia, até que irritaram os deuses e acabaram sendo partidas ao meio por Zeus. Isso fez com que até hoje, os seres humanos buscassem sua outra metade, sua unidade perdida. Nessa visão, é impossível ser feliz sendo incompleto. Aristófanes era um romântico.

O quinto discurso é de Agatão, que é um poeta trágico. Ele utiliza jogos de palavras, imagens em um belo discurso. Para ele, Eros é o mais novo entre todos os deuses e se destaca por sua beleza e virtude. Defende a identificação entre semelhantes. Afirma que o amor é belo, logo atrai a beleza. O amor é bom, logo atrairá a bondade.

O sexto discurso é de Sócrates, e ele inicia acabando com o argumento anterior. Para ele, o amor é desejo. Ao afirmar isso, todos concordam com ele. E ele continua: “…e nós só desejamos aquilo que nós não temos.” Então, se o amor deseja o belo, ele não é belo. Se o amor deseja o bom, ele não é bom. Ele reflete que o interessante é pensar que o amor não é bom ou mau, mas está em algum ponto entre esses extremos. E, por não ser perfeito, o amor também não é um deus, mas uma entidade intermediária entre os homens e os deuses. Para ele, o amor é filho do recurso e da pobreza. É carência, busca, é desejar determinada coisa sem podermos possuí-la. Daí, nasce a ideia de “amor platônico”: amor ao inalcançável, porque ao alcançá-lo, deixa de ser amor.

Breve análise do Banquete

É interessante pensar que o amor de manifesta em tudo no discurso de Aristófanes, para quem quiser se aprofundar. E, mesmo que Sócrates, ao final, tenha ganhado todos os discursos justamente por apontar o amor platônico afirmando que só amamos aquilo que desejamos, há que se refletir também sobre a carência que ilustra tal afirmação e que alimenta muitas histórias shakespearianas e hollywoodianas também.

O romantismo de Aristófanes também complementa o drama dos filmes da Disney, quando trata das almas gêmeas, ou que existe alguém esperando para ser encontrado em algum lugar. Além disso, temos a ilusão de Agatão, quando fala da beleza do amor. Digo isso por justamente nos depararmos com o diferente, mesmo na semelhança, e é aí que surge a necessidade das concessões a fim de que dê certo. Por outro lado, é interessante pensar que, sim, é possível o belo atrair o belo, se formos pensar na linha das afinidades, justamente o fio condutor do sucesso de uma relação.

Já Erixímaco abrange o equilíbrio dos corpos, algo interessante de se pensar, quando entramos na linha da homeostase de uma pessoa, no sentido de estar bem consigo mesma (saudável, no sentido amplo da palavra) a fim de que possa estar inteira na união com outra pessoa que também esteja inteira.

Veja que são conceitos muito discutidos por aí afora. Não sei se minha interpretação está correta, mas foi a análise que fui capaz de fazer.  E você? O que pensa sobre o amor? Como está a construção do amor em sua vida?

Bibliografia recomendada:

PLATÃO. O banquete. 1 ed. São Paulo: 34, 2016. 253 p.

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