Cultura da Paz: o que ainda falta para alcançá-la?

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A cultura da paz é um objetivo que deveria ser uma meta de todos nós. No entanto, sair da cultura da violência para uma cultura da paz exige algumas mudanças de pensamentos e até mesmo de paradigma.

No final de semana do dia 06/10/2018, em Foz do Iguaçu, visitei uma exposição no Shopping JL que exibiu diversos painéis com o tema “Da cultura da violência para a cultura da paz”. Nestes painéis constavam informações relevantes a respeito da violência (especificamente com as armas ainda existentes), abordando personalidades que tinham uma intenção positiva e que, de alguma forma colaboraram com a disseminação da violência, como foi o caso de Einstein, por exemplo. A exposição foi um crescendo, passando, inclusive pelo que é necessário para mudar, apresentando propostas da ONU (Organização das Nações Unidas) a respeito disso e os 17 objetivos para transformar o mundo (ODS).

A instituição que organiza essa exposição, que permanecerá no local até o dia 20 de outubro de 2018, é uma Organização não governamental da cidade de Foz do Iguaçu/PR.

Vou apresentar abaixo uma síntese do que vi nessa exposição, junto a uma pesquisa que fiz a respeito a fim de que você possa acompanhar e opinar.

Cultura da violência

A cultura da violência é um resquício da primitividade humana. Isso ocorre porque ainda há pessoas que possuem certa dificuldade em lidar com suas próprias emoções, ou simplesmente controlá-las, o que acarreta em uma atitude descontrolada socialmente falando. Tais pessoas tendem a agir por instinto em  situações em que a racionalidade ajudaria bem mais.

Claro que nesses  casos, a patologia está presente, e quero falar aqui da sutilidade da violência, muito mais presente do que se imagina, e pouco abordada.

Mesmo assim, acho válido fazermos algumas reflexões a título de análise. Veja esse trecho retirado do Jornal Gazeta Online:

FONTE: https://www.gazetaonline.com.br/opiniao/artigos/2017/06/cultura-da-violencia-1014070659.html

Exemplos de violência

Existem alguns tipos de violência. Sabe aquela violência sutil? Aquela baseada na chantagem (ou ameaça)? Exemplo: “se você não fizer isso, não terá aquilo”. Então, essa é uma violência justamente porque não te dá a opção de escolha, baseando-se na chantagem, colocando a contrapartida daquilo que ele não quer fazer a fim de obter o que ele quer. Muito comum nas famílias. Porém, isso já é imposição de uma ação de quem tem uma autoridade sobre outro, ou outros.

Outros exemplos de violência são: “você não sabe o que está fazendo”; “você sabe com quem está falando?!”; além de preconceitos; atitudes machistas; homofobia; violência doméstica; movimentos ou sistemas / instituições antidemocráticas.

Existem inúmeros tipos de violência e o nosso dicionário define muito claramente o significado dessa palavra: qualidade do que é violento; ação ou efeito de empregar força física ou intimidação moral contra; ato violento; exercício injusto ou discricionário, ger. ilegal, de força ou de poder; força súbita que se faz sentir com intensidade; fúria, veemência.

Além disso, trata-se de um termo jurídico que se traduz por constrangimento físico ou moral exercido sobre alguém, para obrigá-lo a submeter-se à vontade de outrem; coação. E, por extensão, significa cerceamento da justiça e do direito; coação, opressão, tirania.

O relatório mundial sobre violência e saúde, produzido pela OMS em 2002, deduz a violência sempre tenha feito parte da experiência humana, considerando que o seu impacto pode ser visto de várias formas e em diversas partes do mundo.

Para a OMS, a violência pode ser conceituada como: “O uso intencional da força física ou do poder, real ou em ameaça, contra si próprio, contra outra pessoa, ou contra um grupo ou uma comunidade, que resulte ou tenha grande possibilidade de resultar em lesão, morte, dano psicológico, deficiência de desenvolvimento ou privação.”

Para Velho (2000), a sociedade brasileira tradicional, a partir de um complexo equilíbrio de hierarquia e individualismos, desenvolveu, associado a um sistema de trocas, reciprocidade na desigualdade e patronagem, o uso da violência, mais ou menos legítimo, por parte de atores sociais bem definidos. Nesse contexto, o autor sinaliza para a reflexão de que esse sistema direciona para uma cultura de violência, tendendo à corrupção e à desconfiança geral do brasileiro, o que leva à revolta. Nesse ínterim, ele ainda acrescenta:

A família, a escola e a religião não têm sido capazes, por sua vez, de resistir a essa deteriorização de valores. Na sociedade tradicional, com sua violência constitutiva, existiam mecanismos de controle social que marcaram uma moralidade básica compartilhada. Sem dúvida, continuam existindo áreas e grupos sociais que preservam e se preocupam com essas questões. Certamente a maioria das pessoas não é violenta ou corrupta. No entanto, o clima geral de impunidade incentiva a utilização de recursos e estratégias criminosas. A mídia, fundamental numa sociedade democrática, denuncia e divulga o estado de coisas, tornando pública, pelo menos, parte da atividade criminosa. Mas, em poucos casos, existe a percepção de que a denúncia tem conseqüências, aumentando a sensação de injustiça e impunidade que é, talvez, a principal causa de violência. Hospitais funcionam precariamente, o transporte público é deficiente, os salários baixos e ainda, diariamente, novos escândalos aparecem.

Mesmo tendo trazido o Brasil para a pauta dessa discussão, a cultura da violência engloba o mundo inteiro. É por isso que existem movimentos ligados à ONU com o objetivo de desenvolver e promover a cultura da paz.

Cultura da Paz

Para Pureza (2000), ao proclamar o ano 2000 como Ano Internacional da Cultura da Paz, pela sua Resolução 52/15, de 15 de Janeiro de 1998, e tendo então adotado uma Declaração e um Programa de Ação sobre a Cultura da Paz, a Assembleia Geral das Nações Unidas associou-se a esta recusa de um olhar fatalista sobre o futuro. Ao declarar que a paz é sempre possível e que a violência é evitável, as Nações Unidas colocaram-se em oposição à inevitabilidade da força e da política de poder como vias únicas. E, mais ainda, sublinharam a necessidade de superar uma visão tecnocrática do desenvolvimento sustentável.

Tendo por base essa proposição, podemos definir a paz, de acordo com o dicionário brasileiro, como a relação entre pessoas que não estão em conflito; acordo, concórdia; relação tranquila entre cidadãos; ausência de problemas, de violência; situação de uma nação ou de um Estado que não está em guerra; cessação total de hostilidades entre Estados, mediante celebração de tratado; armistício; estado de espírito de uma pessoa que não é perturbada por conflitos ou inquietações; estado característico de um lugar ou de um momento em que não há barulho e/ou agitação; calma, sossego.

Veja que os desafios para se alcançar a cultura da paz são grandes, só pela definição. Se paz é o oposto de violência, como alcançar essa cultura da paz, imersos na cultura da violência, tendo em vista que se trata de um problema mundial, e também considerando serem os conflitos inerentes ao ser humano?

Para o mesmo autor, Pureza (2000), existem três vetores favoráveis à transformação / conversão para a cultura da paz. São eles:
o primeiro é a substituição da territorialidade pelos interesses comuns; o segundo é a substituição do etnocentrismo pelo
multiculturalismo; e o terceiro é a substituição das lealdades de proximidade por uma cidadania cosmopolita. Em outras palavras, existe toda uma mudança na forma de viver em sociedade a fim de que a cultura da paz seja factível.

Diálogo como solução

No entanto, é claro que existem alguns passos que já podem ser galgados, como o diálogo, por exemplo. A meu ver, em quaisquer circunstâncias, entendo que o diálogo é a melhor solução, desde que seja possível um debate pacífico, sem que um imponha suas ideias, mas que todos possam se escutar e chegar a um acordo comum, visando o que for melhor para todos, dentro de determinado contexto. Geralmente, debates exigem mediadores; enquanto diálogos, exigem pessoas conscientes dispostas a fazerem o que quer que seja dar certo. Isso é o início do início da cultura da paz e, por consequência, o início do início da democracia pura, de fato.

Entenda: diálogo significa fala em que há a interação entre dois ou mais indivíduos; colóquio, conversa; contato e discussão entre duas partes (p.ex., em busca de um acordo); troca de ideias. Assim, é possível inferir que quando se busca pelo diálogo já está implícito que existe uma busca por acordo e paz.

Porém, fazer a mediação dos conflitos humanos exige uma pacificidade por parte do mediador, que visa o diálogo entre as partes em desacordo. Exige do mediador paciência para ouvir, pensamento estratégico e analiticidade, na maioria das vezes. Não é um processo simples, justamente porque estamos falando de pessoas, e pessoas são complexas. Mas, julgo uma função extremamente necessária. E te pergunto: é fácil ou difícil encontrar pessoas na sociedade com perfil mediador? Reflita.

Em busca da Assertividade

Na sociedade em que estamos inseridos, ninguém nasce sabendo ser assertivo. Ou as pessoas pendem para a agressividade, ou para a passividade, em contextos diversos, e podendo haver preponderâncias, a depender do contexto familiar e social dentro do qual o indivíduo está inserido. Por isso, estamos em busca da assertividade a fim de construirmos um mundo melhor, sem violência, e regado pela cultura da paz.

Dentro disso, a assertividade pode ser desenvolvida por qualquer pessoa, com acompanhamento de um psicólogo. Saiba mais, clicando aqui.

O que já está em andamento?

Mas, calma, antes de continuarmos a pensar sobre essas questões, é cabível verificarmos o que já está em andamento, até para não inventarmos a roda, por assim dizer.

Temos um movimento ligado à Comunicação não violenta muito forte, decorrente do livro “Comunicação não violenta”, de Marshall Rosenberg. Trata-se de uma proposta de desenvolvimento da empatia em prol do diálogo assertivo, sem conflitos. Essa proposta já está presente no Brasil, com diversos profissionais envolvidos em workshops e aulas para, inclusive, crianças. Essa abordagem, inclusive, tem salvado vidas.

Cultura da paz no Brasil

O estabelecimento de uma cultura de paz e desenvolvimento sustentável estão no cerne do mandato da UNESCO. A capacitação e a pesquisa em desenvolvimento sustentável estão entre as prioridades, assim como a educação em direitos humanos, competências para as relações pacíficas, boa governança, memória sobre o Holocausto, prevenção de conflitos e construção da paz.

A pobreza, a desigualdade e a injustiça social refletem-se na contínua violação dos direitos humanos, incluindo o direito à vida e à segurança.

A questão da violência no Brasil é uma das maiores preocupações da sociedade. Os índices de violência e de insegurança, especialmente nos grandes centros urbanos, aumentaram nas últimas duas décadas.Os homicídios são hoje uma das principais causas de morte entre homens jovens de idades entre 15 e 39 anos, sendo que a maioria das vítimas é constituída por homens negros:

Entre 1980 e 2002, foram registrados no Brasil 696.056 óbitos por homicídios4, número que pode ser considerado dos mais alarmantes no mundo entre os países que não enfrentam guerras internas.
Os homicídios na faixa etária de 0 a 19 anos correspondem a 16% (111.369) desse total, e a maior concentração, de 87,6% (97.559) dos casos, é registrada no intervalo entre 15 a 19 anos.
Em 2004, a taxa de 27 homicídios por 100.000 habitantes, coloca o país na 4ª posição em um ranking de 84 países. A mesma taxa no mesmo ano, para a população jovem, sobe para 57,1 homicídios por 100.000.
Em 2005, em média, 23 crianças e adolescentes foram assassinados diariamente, perfazendo um total de 8,4 mil assassinatos naquele ano. Do total, aproximadamente 5.460 (equivalentes a 65%) eram crianças negras.
Dados de 2012 indicam que o risco de uma pessoa negra ser assassinada no Brasil é, em média, 2,5 vezes maior que uma pessoa branca, segundo o relatório “Índice de Vulnerabilidade Juvenil à Violência e Desigualdade Racial 2014”.
Todos estes dados estatísticos permitem caracterizar que a violência incide essencialmente sobre a população jovem do Brasil.

EDUCAÇÃO SEM VIOLÊNCIA NO BRASIL

Mais do que teoria e prática, a não violência tem que ser uma atitude entre toda a prática de ensino, envolvendo todos os profissionais de educação e estudantes da escola, pais e comunidade em um desafio comum e compartilhado. Assim, a não violência integrada dá ao professor outra visão de seu trabalho pedagógico.

A escola tem que dar lugar ao diálogo e ao compartilhamento, se tornando um centro para a vida cívica na comunidade.

Para se obter um real impacto, a educação sem violência tem que ser um projeto de toda a escola, o qual deve ser planejado, integrado em todos os aspectos do currículo escolar, na pedagogia e nas atividades, envolvendo todos os professores e profissionais da escola, assim como toda a estrutura organizacional da equipe de tomadas de decisões educacionais.

As práticas de não violência devem ser coerentes e devem estar refletidas nas regras e na utilização das instalações da escola.

Vista pelo ângulo da não violência, a Educação é para:

Aprender sobre nossos direitos, responsabilidades e obrigações.
Aprender a viver juntos, respeitando nossas diferenças e similaridades.
Desenvolver o aprendizado baseado na cooperação, baseado no diálogo e na compreensão intercultural.
Ajudar as crianças a encontrar soluções não violentas para resolverem seus conflitos, experimentarem conflitos utilizando maneiras construtivas de mediação e estratégias de resolução.
Promover a valores e atitudes de não violência: autonomia, responsabilidade, cooperação, criatividade e solidariedade.
Capacitar estudantes a construírem juntos, com seus colegas, seus próprios ideais de paz.
A UNESCO sugere alguns sites e ideias para lidar com a solução de conflitos. Algumas sugestões incluem treinamento para professores e jovens estudantes. Por exemplo, em dezembro de 2008, o setor de Ciências Humanas e Sociais da UNESCO no Brasil, realizou o primeiro exercício de sistematização de experiências do programa Abrindo Espaços: educação e cultura para a paz – programa de inclusão social de abertura das escolas nos finais de semana, oferecendo a jovens e à comunidade atividades artísticas, esportivas e de lazer.

Além disso, publicou uma coleção de oito livros que, além das referências metodológicas e conceituais do programa, contêm também um guia passo a passo para a sua implantação e dois manuais para professores convidando a cultivar a paz em sala de aula e praticar a não violência por meio de jogos pedagógicos ou pelo uso de algumas atividades.

FONTE: http://www.unesco.org/new/pt/brasilia/social-and-human-sciences/culture-of-peace/

AGENDA 2030 PARA O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

Foi pensando justamente na cultura da paz, na sustentabilidade e bem-estar coletivo, “sem deixar ninguém para trás”, que surgiu a proposta da agenda 2030. Em setembro de 2015, os 193 países membros das Nações Unidas adotaram uma nova política global: a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, cujo objetivo é elevar o desenvolvimento do mundo e melhorar a qualidade de vida de todas as pessoas.

Para isso, foram estabelecidos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) com 169 metas – a serem alcançadas por meio de uma ação conjunta que agrega diferentes níveis de governo, organizações, empresas e a sociedade como um todo, nos âmbitos internacional e nacional e também local.

Essa agenda está pautada em cinco áreas de importância (ou chamados 5 Ps): PESSOAS (erradicar a pobreza e a fome de todas as maneiras e garantir a dignidade e a igualdade); PROSPERIDADE (garantir vidas prósperas e plenas, em harmonia com a natureza); PAZ (promover sociedades pacíficas, justas e inclusivas); PARCERIAS (implementar a agenda por meio de uma parceria global sólida); PLANETA (proteger os recursos naturais e o clima do nosso planeta para as gerações futuras).

Conheça abaixo os 17 objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Se tiver interesse em aprofundar, clique aqui.

Espero ter gerado motivação a respeito da cultura da paz, porque a paz deve ser uma busca constante de cada um de nós e permear todas as nossas decisões diárias. Então, gostaria de fechar com um vídeo ainda mais inspirador da Monja Coen:

Bibliografia recomendada:

PUREZA, José Manuel. Estudos sobre a paz e cultura da paz. IDN – Revista Nação e Defesa. 2ª Série;Nº 95-96 (Outono-Inverno 2000): Instituto da Defesa Nacional. Portugal-PT. Disponível em: http://hdl.handle.net/10400.26/1343. Acessado em 09 oct. 2018.

ROSENBERG, Marshall B. Comunicação não-violenta: Técnicas para aprimorar relacionamentos pessoais e profissionais. 1 ed. São Paulo: Ágora, 2006. 285 p.

VELHO, Gilberto. O desafio da violência. Estud. av., São Paulo , v. 14, n. 39, p. 56-60, Aug. 2000 . Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142000000200006&lng=en&nrm=iso>. access on 09 Oct. 2018. http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40142000000200006.

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