Idealizações: importante falarmos sobre elas

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Antes da Psicologia entrar em minha vida, sempre tive a tendência de ser a conselheira amorosa de minhas amigas, ou de pessoas que apareciam em decorrência do meu antigo blog, em que escrevia textos reflexivos, e sobre o amor. Percebi com essa experiência que as idealizações eram uma constante na vida das pessoas, de maneira geral.

Porém, eu aprendia muito com essas idealizações. Os exemplos de fracassos alheios me ensinavam muito por onde não devia caminhar. Já li inúmeros livros a respeito desse assunto também, por isso, acredito ter uma certa propriedade para falar, embora essa propriedade não me torne uma expert no assunto no quesito prática. O aprendizado é contínuo e cada pessoa é única, por mais redundante que pareça essa afirmação.

Ponto comum

Um ponto comum entre as pessoas que me procuravam era que, depois de se entregarem de corpo e alma a alguém em quem depositava confiança, acabavam vivendo exclusivamente para essa pessoa, deixando de lado a própria vida, mesmo que de forma inconsciente. Dessa forma, se esqueciam de si mesmas, perdendo sua identidade. Quando o relacionamento acabava, ia embora junto todas as idealizações que construíram, visto que a realidade foi deixada definitivamente de lado. É claro que, enquanto a coisa funciona, tudo sempre está às mil e uma maravilhas.

As pessoas se apaixonavam por idealizações

Cheguei a pensar que as pessoas não se apaixonavam por pessoas, mas pelas idealizações que faziam das pessoas, influenciadas pela mídia, que estimula o tempo todo o romance desenfreado, inconsequente e aventureiro, muito longe do que é a realidade, porque é justamente o que dá audiência. As pessoas queriam fugir dos dramas diários a fim de viverem dramas irreais, que vão de encontro aos seus próprios problemas. É uma fuga da verdade mesmo! O irreal, ou o drama alheio, soa mais fácil de suportar.

Porém, fato é que não podemos generalizar. Existem situações assim, regadas pela fantasia e idealizações, mas também existem histórias reais com bases sólidas e consistentes. Da mesma forma que a fantasia de alguém também pode ser uma realidade. Tudo depende do ponto de vista.

As desilusões das idealizações

Mas, como se sabe, as estruturas do solo de cimento não aguentam as ilusões de uma energia invisível de uma mente infantil e, por isso, desmorona sobre as cabeças menos prevenidas. As histórias estão cheias de desilusões, porque as pessoas se acomodam em uma realidade só delas, ignorando inclusive o parceiro, que serve de mero coadjuvante e prestador de prazeres temporários. Com isso, quando a verdade aparece, fazem como sempre fizeram: fogem, afirmando com convicção de que não é real. O real é o que está em sua cabeça e prefere ficar lá dentro, presa em sua própria Caverna de Platão.

É a partir dessa situação que assistimos casais sustentando relações cheias de mentiras, por puro orgulho ou vaidade. Compram  a verdade com a mentira, porque é mais confortável, não somente para si próprios, como também para os olhares externos. Muitos vivem uma mentira para suprirem suas carências infantis, as quais não foram garantidas quando realmente eram crianças.

Desamparo

Segundo o psicanalista Flávio Gikovate, em seu livro “Uma história do amor…com final feliz”, as pessoas buscam relações para se confortarem do desamparo de quando eram crianças, ou para sanar a dor do parto, considerada como o maior trauma que já sofremos na vida. Ainda seguindo um pouco das ideias de Winnicott, nascer é doloroso da mesma forma que sair do conforto da cama e acordar cedo, renovar e fazer diferente (para muita gente).

A verdade dói. Por isso, vemos consultórios psicológicos sempre cheios. Precisamos muito de profissionais que possam nos abrir os olhos para as verdades que não queremos ver, nos mostrando uma nova possibilidade, a qual escondemos de nós próprios por meio da cegueira inconsciente. Precisamos de mais consciência para nossas vidas!

Mas, viver é isso: Ser inconsciente e consciente o tempo todo, buscando saídas por meio do erro e acerto. O medo de errar é a nossa própria armadilha contra o sucesso de nossas relações, por isso, insistimos tanto em fugir. Presos em nosso comodismo, nos sentimos seguros, justamente como quando estávamos no útero materno, sem interferências do mundo humano. Por isso, a verdade nos machuca. Nosso desafio é sermos fortes.

Temos o direito de caminhar no nosso ritmo sempre, mas temos a responsabilidade pela nossa tendência traiçoeira da fuga.

Precisamos nos colocar inteiros para a vida

Precisamos nos colocar inteiros para a vida e, para isso, faz-se necessário o aprofundamento em quem realmente somos, entrarmos em contato com nossas angústias, tudo aquilos que nos aflige e causa desconforto, porque é justamente isso que irá nos tornar capazes de encarar os outros com maior lucidez, com os pés fixos na realidade.

O preço que se paga com as idealizações

Pode ser que demore um tempo até alguém se dar conta do preço que se paga com as idealizações, justamente porque talvez seja necessária essa queda para que entre em contato com a realidade. Talvez o sofrimento seja necessário, porque não há como aprender que idealizar é sinônimo de fuga, sem que haja frustrações quando se depara com expectativas não atendidas.

Dentro desse comportamento, encontramos facilmente aqueles que não lidam bem com o amor porque amam demais o outro a ponto de se esquecerem de si, o que também não é saudável. Falei sobre isso no artigo A dor da separação na dependência emocional. Além desse artigo, também tem o meu livro O Amor no Divã, que aborda justamente a  história da personagem, Helena, que sofre muito a cada término de relacionamento, entrando em crises, buscando ajuda fora de si, esquecendo-se de olhar para dentro, e quando faz isso, acontece de maneira superficial.

Uma tendência feminina

Com essa experiência de muitos anos com esse blog, com mais de 400 textos postados, sendo que a maioria voltada para temas como o amor, relacionamento, críticas, dentre outros voltados para política, percebi que as idealizações são uma tendência feminina, e explico por que.

Por muitos séculos a mulher foi reprimida socialmente e culturalmente, o que levou as mulheres a se portarem de maneira mais reservada, submissa, de maneira com que o homem fosse o chefe da casa, tomando a posição de comando.

Por consequência, entende-se que a maneira como muitas mulheres lidou com tal situação para poder melhor lidar com suas emoções, até para extravasar, foi idealizando – uma maneira de fugir daquela realidade que oprimia, que não a deixava ser quem ela realmente era, fazendo com que fosse muito mais infeliz do que feliz. Vivia uma vida que não era de fato a dela, e isso fazia com que se voltasse para suas idealizações, de modo que era lá, nos seus pensamentos, onde tudo o que ela realmente queria, acontecia.

Procure ajuda

Caso você esteja tendendo a fugir através das idealizações, procure ajuda. Entenda: idealizar não é o problema, visto que fazer isso de vez em quando é saudável até para usarmos da nossa criatividade e nos distrairmos da rotina. Mas, quando esse ato se torna uma rotina, pode ser um problema, justamente porque pode indicar uma exaustão na carga de estresse, podendo levar à depressão.

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