Preconceito: o que está por trás dele?

Tempo de leitura: 9 minutos

preconceitoPodemos definir o preconceito como uma atitude negativa que um indivíduo está predisposto a sentir, pensar, e conduzir-se em relação a determinado grupo de uma forma previsível.

Das sensações, podemos citar um  sentimento de impotência ao se tentar mudar alguém com forte preconceito, em uma ideia fixa, quase que de megalomania, em que se considera melhor que o outro em tudo, muitas vezes, de forma inconsciente.

O que é diferente não merece espaço para o convívio dos que se julgam melhores, e as críticas internas são tão severas quanto as que são expostas.

Segundo Allport (1954) o preconceito é o resultado das frustrações das pessoas, que, em determinadas circunstâncias, podem se transformar em raiva e hostilidade. ‘Já para Adorno (1986), a fonte do preconceito é uma personalidade autoritária ou intolerante. Pessoas autoritárias tendem a ser rigidamente convencionais.

No entanto, há que se considerar que o preconceito é inerente ao homem, visto que as crianças possuem uma tendência a avaliar de maneira mais favorável pessoas parecidas com elas, e menos favorável aquelas que são diferentes.

Por isso, dizemos que o comportamento humano possui raízes irracionais que desconhecemos, segundo os estudos de Mahzarin Banaji, psicóloga social e professora do departamento de psicopreconceito22logia da Havard University.

Dessa forma, podemos dizer que aceitamos mais as pessoas que se parecem conosco do que as que são diferentes de nós. E isso nada tem a ver com os juízos de valor ligados à bondade ou maldade. Talvez, o ser humano aja desse jeito devido à experiência, ou falta de contato com o que é diferente, conforme estudo da própria Banaji.

Ainda segundo Banaji, o preconceito é comum, está oculto e continua ativo fora do plano consciente, mesmo em pessoas com visão de mundo genuinamente igualitária. Existem ainda estudos que revelam que algumas pessoas demonstrarão preconceito só porque temem demonstrá-lo.

Pesquisando a respeito do assunto, encontrei um relato sobre preconceito no blog Recanto das Letras, conforme segue:

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Não há motivo de nos envergonharmos quando reconhecemos um preconceito latente em nós. O que nos cabe é investigar suas origens, encontrarmos a causa e, a partir desse conhecimento, passarmos a conviver com tudo o que foge ao nosso padrão a fim de quebrarmos aquilo que julgamos como sendo nosso lado obscuro, ou nossa sombra ‘negativa’, segundo Carl Jung.

‘Chamamos de estereótipo, o conjunto de crenças que dá a imagem simplificada das características de um grupo ou dos membros de um grupo. Os estereótipos são crenças a propósito de características, atributos e comportamentos dos membros de determinados grupos, são formas rígidas e esquemáticas de pensar que resultam de processos de simplificação e que se generalizam a todos os elementos do grupo a que se referem. (…)

… De uma forma mais empírica ou menos científica, estereótipos são as imagens que nos aparecem de imediato na cabeça quando mencionamos um nome, por exemplo burro, a par daquilo que caracteriza esse mesmo nome. Na base dos estereótipos, colocamos os indivíduos que nos rodeiam em “gavetas” , o que nos permite, de uma forma rápida e econômica orientarmo-nos na vida social’. (Trecho retirado do blog http://psicologia-12abc.blogspot.com.br/2009/01/esteritipos.html)

São esses estereótipos que introduzem os preconceitos ao nosso dia a dia. Estes produtos inconscientes, quando se deslocam para o nosso consciente, podem ser trabalhados de forma peculiar, de acordo com a vontade que se tem ou não de mudar.

O preconceito precede os estereótipos e a discriminalização

Para mim, está bastante claro que o preconceito precede os estereótipos e a discriminação. O vídeo acima mostrou um pouco sobre como se dá isso. A questão é que tendo por base que o preconceito diz respeito a um pré conceito que temos de algo ou alguém, antes mesmo de termos contato com esse algo ou alguém, a tendência que temos a estereotipar o objeto do preconceito é bastante grande. Dessa forma, a pessoa autora desse preconceito e estereotipação é a mesma que possui a tendência de discriminalizar determinados grupos.

Avalie se você está tendo atitudes preconceituosas

Você está sendo preconceituoso? Vamos avaliar juntos:

1- Você vê alguém pela primeira vez e já faz uma rápida avaliação definidora a respeito da pessoa, sem tirar a prova concreta conversando ou a conhecendo de fato?
2- Você tem sua opinião formada a respeito de determinados grupos e não aceita que falem algo diferente daquilo que você pensa?
3- Você não aceita a opinião diferente da sua e bate o pé a respeito do que pensa sem dar a mínima para o que estão te falando de novo?
4- Você já considerou a possibilidade de ser uma pessoa neofóbica?
5- Você é do tipo de pessoa que não gosta de perder uma discussão ou consegue ouvir opiniões divergentes, ampliar sua visão a respeito do que pensa, mesmo pensando diferente do outro?
6- Você consegue pensar na ideia de mudar drasticamente de opinião?

Se você respondeu sim para a maioria das perguntas acima, você é uma pessoa preconceituosa. E se ainda respondeu não para a última pergunta, pode se considerar conservadora.

Pense em alternativas

Mesmo que tenha respondido sim para a maioria das perguntas do item anterior e ainda reforçado a hipótese de ser preconceituoso com o ‘não’ da última questão, considere a possibilidade de pensar em alternativas. Reflita: se você chegou até aqui com a leitura desse texto, significa que o mínimo de neofilia possui, a ponto de querer mudar.

Dessa forma, algo que pode te ajudar é pensar que, para cada conclusão, sempre há muitas outras possibilidades de conclusões. Ou seja, nunca há sempre uma única resposta certa para cada situação da vida, da mesma forma que nunca há uma única solução para cada problema.

Pense que há várias cabeças no mundo, mais precisamente, cerca de 7 bilhões. Cada uma dessas cabeças nasceu em uma determinada estrutura familiar, inserida em um contexto cultural peculiar característico de um país, que pode ser mais conservador ou não, por exemplo. Dentro de cada uma dessas situações, cada cabeça pode chegar a inúmeras possibilidades de conclusões de acordo com o impacto que teve com suas experiências de vida na infância, adolescência, adultidade, velhice, e com as relações que teve.

Dessa forma, essas relações e experiências podem impactar essas cabeças de tal forma, que as leve a interpretar situações por um viés que outra cabeça oriunda de outra localização qualquer não consiga compreender, justamente porque não está naquele corpo cuja cabeça pertence. Compreendeu a linha de raciocínio?

Em outras palavras, existem muitos pontos de vista para uma mesma interpretação. Da mesma forma, que existem várias abordagens para um mesmo fato, sob o viés de áreas profissionais distintas: a psicologia, a medicina e o direito tem visões diferenciadas que saltam aos seus olhos ao interpretar uma situação de violência doméstica, por exemplo. O médico olhará os aspecto saúde dos envolvidos, como o agredido se encontra fisicamente, O psicólogo analisará a peculiaridade de cada um dos envolvidos, não enxergando culpados, apenas vítimas nessa situação, porém, visando o empoderamento da vítima, por exemplo. O advogado tratará dos direitos do agredido, e talvez até do agressor.

O que o momento político tem a nos dizer sobre o preconceito

Muito do que vemos nos debates facebookianos de maneira geral diz respeito a uma população que se coloca uma contra a outra ao mesmo tempo em que se une. Explico: se une contra a agressividade de um candidato dizendo ele não e qualquer outro sim. Mas, por outro lado, se agrede mutuamente na tentativa de afirmar que sua visão é a correta e a do outro é a errada. Um paradoxo completo!

A grande questão de todo esse cenário é que se perdeu o senso crítico e deu espaço para opiniões sem um embasamento profundo acerca da realidade e das ideologias por trás de cada proposta dos candidatos. Mas, o fato é que, observando as discussões, penso que existe muito preconceito envolvido. Não há um aprofundamento devido em termos de  análise quanto ao que o candidato em questão propõe, o julgando apenas pelo passado partidário, por exemplo. Mas, podemos abranger esse momento político por diversos  vieses. Mas, falo do preconceito em si, justamente para dizer que, na ânsia de acusar, não se escuta de fato o que o outro tem a dizer, porque já se tem uma opinião formada. E assim, os julgamentos acontecem às cegas, por ira, raiva, paixão.

E tem o lado preconceituoso por si só daquele candidato raivoso, perverso, “Trump brasileiro”, que pensa que pode resolver tudo na base da “bala”, literalmente falando. É preconceituoso em relação a mulheres, homossexuais, classe social e todos aqueles que pensam contrários a ele. Ou seja, só ele é o correto. E o discurso daqueles que o defende é que a mídia não mostra a realidade, quando há vídeos na íntegra do dito cujo mostrando quem ele realmente é.

O momento é delicado. E, por isso, não pude me omitir. Preconceito é preconceito. Preconceito é pré julgamento. Deve ser exterminado quando a atitude extrapola o pensamento.  Vale a reflexão.

*Publicado originalmente no antigo blog Michelly Ribeiro, em 25/09/2013 (com adaptações).

Bibliografia recomendada:

ADORNO, T. W. Educação após Auschwitz. In: Sociologia. São Paulo: Ática, 1986.
ALLPORT, G. The nature of prejudice. Cambridge: Addison-Wesley, 1954.

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