Saiba se você está em um relacionamento codependente

Tempo de leitura: 12 minutos

Saiba se você está em um relacionamento codependente. Identifique se você está em um relacionamento codependente a partir das características apresentadas neste texto, observando seus padrões de relacionamentos afetivos, bem como o que é vendido pela mídia, filmes, e romances.

Você já percebeu o quanto a dor do amor é valorizada em uma novela ou filme de sucesso? Percebeu o quanto somos influenciados por esse marketing da dor, presente nos romances hollywoodianos?

Agora, já parou para pensar nos dois lados dessa mesma moeda? Quem veio antes: a patologia da dependência emocional ou a influência desses filmes hollywoodianos? Será que eles fazem sucesso porque é uma tendência comportamental das pessoas de maneira geral, ou eles influenciaram esse comportamento social?

Essa resposta é difícil de obter assim. Mas, prefiro analisar sob o aspecto subjetivo, encarando que cada caso é um caso. No entanto, o relacionamento codependente nasce da patologia da dependência emocional, da qual já falamos em outro artigo e você pode conferir, clicando aqui. Assim, quando duas pessoas dependentes emocionalmente se juntam, forma-se então, uma relação de codependência.

Afinal o que é um relacionamento codependente?

Você deve estar se perguntando: “Afinal, o que é um relacionamento codependente”? Em tese, já respondi, superficialmente e didaticamente no início deste artigo. Mas, por definição, o relacionamento codependente é a condição  de um relacionamento quado este se torna mais importante para você do que você mesmo. Apesar do termo “codependência” possuir o sufixo co indicando algo que parte de dois lados, o relacionamento codependente indica um relacionamento unilateral. Ou seja, é uma situação em que você está tentando fazer o relacionamento funcionar com alguém que não está emocionalmente disponível ou disponível dentro das suas expectativas ou idealizações.

Porém, dentro de tudo o que já pesquisei a respeito, e também de experiências pessoais, afirmo que o relacionamento codependente é uma “via de mão dupla”, sim!  Explico por que: em qualquer relação que entramos, nossa tendência é atrair pessoas afins, seja em termos de semelhanças ou de complementariedades. Dificilmente uma relação se constitui por opostos, como aquela errônea frase que afirma: “os opostos se atraem”. Há que haver o mínimo de similitude para que seja possível o mínimo de equilíbrio, e que nem sempre, necessariamente, é positivo. Falo de um equilíbrio para que essa relação se mantenha.

Na codependência, há pelo menos um que pode ser caracterizado como o típico dependente emocional. Porém, há a contrapartida do parceiro (ou parceira) que alimenta essa dependência, seja pelo prazer de ver o dependente fazendo de tudo para manter aquela relação, suprindo suas carências e vice-versa, justamente porque o alicerce do dependente emocional inconsciente é justamente o desafio de conquistar, porque sua crença central está ligada à insegurança que nutre o pensamento de não ser digno de ser amado. Então, ele precisa dessa afirmação do outro e, na maioria das vezes, não tem, justamente pelos comportamentos autossabotadores dessa relação. Por trás dessa condição, quando se mantém, está o traço manipulador de ambos: na maioria das vezes, é essa condição patológica que os mantêm juntos. Por exemplo, sei que o parceiro gosta de fazer tudo por mim e eu sinto prazer nisso, logo fico na minha zona de conforto, não preciso retribuir e nem fazer algo em troca porque já terei aquilo. Veja que a balança está descompensada. Com o tempo, o dependente emocional vai se cansar de fazer tudo pelo outro (sem ter lucidez que essa atitude é equivocada) e não receber nada em troca. E pode acontecer o contrário também: do outro se cansar de receber sem ter espaço para agir. O que acontece? Ambos terminam e alimentam a crença um do outro de que não são dignos de serem amados, ou que dificilmente serão felizes em uma relação, justamente pelos critérios que estabelecem (exigências) de união.

E quando a relação dura, pode indicar até um estágio avançado de codependência, com excessiva baixa lucidez para o processo, levando a relações, inclusive, abusivas, agressivas e por aí vai.

Trata-se de um vício pelo ato de cuidar do outro. mas, um cuidar no sentido controlador da palavra. Se fôssemos definir um traço comportamental negativo preponderante dessa pessoa dependente emocionalmente, poderíamos dizer que é o controle, o que leva à manipulação de maneiras das mais variadas, e nem sempre detectadas tão facilmente pelas “vítimas” dessa manipulação. Jogos de sedução são ferramentas bastante utilizadas por pessoas com esse perfil.

Isso te soa familiar?

E quais são as características de um relacionamento codependente?

E quais são as características de um relacionamento codependente? Se pudéssemos listar algumas características de um relacionamento codependente para fins didáticos e, dentro de tudo o que já foi mapeado por meio de estudos, eu listaria os abaixo relacionados.

1- Existe um parceiro que possui o papel de salvador da relação. Trata-se daquele que se vê no papel de fazer algo para tirar o outro da situação em que ele se encontra, quase como um super-herói que vai curá-lo de feridas, sejam elas reais ou idealizadas por esse que possui o papel de salvador.
2- Esse relacionamento codependente tende a ser extremamente instável. Existe um misto de sentimentos que permeiam essa relação: amor, ódio, paixão e repulsão. São extremos emocionais pelos quais um ou ambos os parceiros passam.
3- Brigas, disputas de poder, conflitos, carências e fugas (esta última consciente ou inconsciente, em sua maioria). Na presença desses fatos, pode ocorrer de um correr atrás e outro foge, por exemplo.
4- Tentativa de mudar a outra pessoa quando esta não atinge as expectativas idealizadas, causando frustração. Isso ocorre principalmente porque os codependentes são grandes criadores de expectativas em cima da outra pessoa, tendendo a projetar suas carências no outro, além de negarem a realidade, vivendo mais no mundo das ideias: não consegue enxergar o outro real. Ao invés disso, enxerga aquilo que o outro deveria ser para ele, na concepção dele. Dessa forma, passa a vida tentando mudar o outro para suprir a expectativa de ser amado. Ele não aceita a realidade do outro, o que gera os conflitos, ao mesmo tempo em que teme perder.

Vale lembrar que mesmo que apenas um dos parceiros apresente tais comportamentos, estes serão nutridos, direta ou indiretamente por aquele outro que está nessa relação e vice-versa. Dessa forma, na terapêutica, há que se analisar o que vincula cada um dos parceiros a essa relação (detalhe por detalhe) e trabalhar em cima disso, justamente porque no relacionamento codependente, o casal compactua a dinâmica de dependência.

O que mantém o relacionamento de codependência?

Interessante pensar nessa pergunta porque, se é uma relação conflituosa, o que mantém o relacionamento de codependência? É importante e válido perceber que a busca do codependente é uma busca amorosa. Ele busca ser amado, como já comentamos no início desse texto. Por esse motivo, é preciso, em cada caso, buscar entender qual é o tipo de carência envolvida na relação. Qual é a carência emocional arraigada na história pessoal de cada um dos parceiros, que está por trás desse relacionamento codependente e que sustenta essa relação?

Dessa forma, podemos concluir que para o codependente se manter em determinada relação, a leitura que se pode fazer é que essa relação traz à tona essa carência que não foi suprida em suas bases familiares, e que ela por si só, como consequência, não consegue suprir. É por esse motivo que é tão difícil terminar essas relações, porque o término fará com que o dependente entre em contato com as dores emocionais da infância, ou seja, com que entre em contato com sua criança ferida, e isso gera desconforto por não saber lidar com essa dor, esse vazio dela mesma, que só ela pode suprir e que, nesse momento, não consegue.

Mesma dinâmica dos vícios

No relacionamento codependente, instala-se a mesma dinâmica dos vícios. A autora do livro “Amores que matam”, Patricia Faur, descreve a dinâmica do relacionamento codependente como a mesma dos vícios e cita a ocorrência de 4 comportamentos, seguindo a respectiva ordem:

1- Obsessão. Quando o pensamento sobre a relação invade tudo.
2- Controle. O controle da relação, da vida e dos movimentos do outro é esgotante.
3- Tolerância. Há a necessidade do aumeto da dose para se chegar ao mesmo efeito, como no caso das drogas e álcool. Nesse caso, o que vai aumentando é a tolerância à dor emocional.
4- Abstinência. Diante da possibilidade de rompimento, aparecem sintomas de abstinência: angústia intensa, ataques de pânico, insônia, perda de apetite.

O término do relacionamento codependente

Conforme já comentado anteriormente, existem alguns comportamentos inerentes ao relacionamento codependente que culminam no término desse relacionamento codependente, os quais servem de alerta, inclusive, para outros modelos de relações.

A autora do livro “Para além da codependência”, Melody Beattie, afirma que certos comportamentos prejudicam os relacionamentos.

Baixa autoestima, assumir as responsabilidades dos outros, negligenciar a nós mesmos, não resolver os problemas e tentar controlar as outras pessoas ou os relacionamentos, podem causar danos. Ser demasiadamente dependente, não discutir emoções e problemas, mentiras, abusos e vícios não resolvidos também podem ser prejudiciais. Certas atitudes – como parecer desanimado, ressentido, criticar incessantemente, ingenuidade, falta de confiança e sensibilidade, negatividade ou cinismo – podem arruinar relacionamentos.

Terapêutica. Com isso bem definido, fica fácil de entender que um relacionamento maduro se sustenta pela comunicação assertiva, em que se coloca limites por parte de ambos, que se conhecem bem para que estejam inteiros dentro de uma relação. sabem o que querem e por que querem, não aceitando menos do estabelecido. Reconhece seus limites, demonstra suas falhas, é o mais autêntico possível em sua relação, sem medo de dizer o que pensa, porque já não teme perder o outro, considerando que ninguém perde ninguém, que o outro é livre para ser quem é. Dentro dessa maturidade relacional, entende-se a naturalidade das ações mais voltadas para as concessões do que para exigências. E isso não é utópico! Percebe-se que quanto mais equilibrado se está internamente, a tendência é levar esse equilíbrio para todas as relações da vida, incluindo principalmente a afetiva-sexual. Dentro disso, elege-se a terapêutica do relacionamento codependente com o treino de habilidades sociais (THS) voltado para a assertividade, bastante utilizado na terapia cognitivo comportamental.

O Amor no Divã aborda a temática do relacionamento codependente

Conforme já abordei no artigo A dor da separação na dependência emocional, em 2016, escrevi um livro literário a respeito da personagem Helena, cujos relacionamentos possuíam sempre fins drásticos, em sua visão, o que culminava em crises emocionais profundas vivenciadas por ela, que vivenciava relacionamentos codependentes. O livro trata de levar o leitor a fazer uma análise da personagem junto com a própria autora, de modo que não saia o mesmo após a leitura, geradora de profundas reflexões.

O livro pode ser comprado online na versão ebook e também impresso, conforme ilustração ao lado. Clique aqui para acessar a página de compras.

Filmes que ilustram o relacionamento codependente

Cinéfila que sou, andei assistindo a alguns filmes que ilustram bem a dinâmica dos relacionamentos codependentes, bem como a dependência emocional em si. Então, gostaria de compartilhar com vocês alguns trailers, partindo do filme que julguei mais significativo e relevante ao menos, porém, todos eles refletindo bem o que é o relacionamento codependente. Todos podem ser encontrados no Netflix.

Pais e Filhas

Sinopse: Nova York, 1988. Romancista mentalmente instável e viúvo (Russel Crowe) tenta criar sozinho a filha de cinco anos. Vinte anos depois a garota, já adulta (Amanda Seyfried), cuida de crianças com problemas psicológicos e ainda tenta entender sua complicada infância.

Um caso de amor

Sinopse: Um jovem escritor tenta impressionar uma garota que conheceu na internet criando um perfil cheio de mentiras. A confusão começa quando ela se apaixona e deseja conhecê-lo pessoalmente.

Felicidade por um fio

Sinopse: Violet não pode reclamar: emprego, namorado, cabelo… tudo é perfeito! Mas e quando a perfeição já não é mais suficiente?

As leis da termodinâmica

Sinopse: Um amante rejeitado está convencido de que o fracasso em todos os seus relacionamentos românticos é devido às leis da termodinâmica.

Love me!

Sinopse: Intensa, impulsiva e autoconfiante, uma jovem nutre em segredo o desejo de ser amada, mas não consegue se controlar para não forçar a barra em seus relacionamentos.

 

Bibliografia recomendada:

BEATTIE, Melody. Para além da codependência: O que fazer depois que a dor passa e é preciso seguir. 1 ed. Rio de Janeiro: Viva Livros, 2013. 287 p.
FAUR, Patricia. Amores que matam: Quando um relacionamento inadequado pode ser tão perigoso quanto usar uma droga. 1. Porto Alegre: L, 2012. 179 p.

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